Por Thiago Martins – [email protected]
Mobilidade em Pauta

Neste sábado (6), a Prefeitura do Natal realiza a segunda edição do programa de cashback no transporte público, iniciativa criada para estimular o uso dos ônibus e fortalecer o comércio dos bairros do Alecrim e da Cidade Alta. Apesar da proposta já estar em funcionamento, os problemas estruturais do sistema continuam impedindo que moradores de pelo menos seis bairros e conjuntos da capital consigam aproveitar plenamente o benefício.
A medida prevê a devolução do valor da tarifa para usuários que realizarem viagens até os dois principais polos comerciais da cidade utilizando o cartão NuBus. No entanto, passados os primeiros testes da operação, nada mudou para quem mora em localidades que enfrentam escassez de linhas ou dificuldades de integração.
Entre as regiões mais afetadas estão Parque das Colinas, Nova Descoberta, Neópolis, Cidade Satélite, Serrambi e o conjunto Gramoré. Em comum, todas apresentam limitações operacionais que dificultam ou até inviabilizam o deslocamento até os pontos contemplados pelo programa.
Falta de linhas continua sendo principal obstáculo
Embora o objetivo da Prefeitura seja atrair consumidores para o comércio tradicional da cidade, a própria rede de transporte ainda não oferece alternativas adequadas para parte dos usuários.
Moradores do Parque das Colinas, Cidade Satélite e de áreas de Neópolis dependem basicamente das linhas L-37, L-51 ou N-78 para chegar ao Centro. O problema surge quando o passageiro precisa seguir até o Alecrim, já que as regras atuais de integração impedem conexões entre determinadas linhas que possuem o mesmo terminal operacional de origem.
Na prática, isso reduz significativamente as opções disponíveis e obriga muitos usuários a realizar deslocamentos adicionais a pé para completar a viagem.
Gramoré e Serrambi seguem praticamente excluídos
A situação é ainda mais crítica para moradores do Gramoré e do Serrambi.
No Gramoré, a única alternativa continua sendo a linha N-02, que liga a região ao Midway Mall. Já no Serrambi, o atendimento depende apenas da linha S-50. Nenhuma das duas localidades possui ligação eficiente com Alecrim ou Cidade Alta que permita ao usuário cumprir facilmente as regras exigidas pelo cashback.
O resultado é que parte da população permanece à margem de uma política pública criada justamente para ampliar o acesso ao transporte coletivo e incentivar o deslocamento para o comércio popular.
Integração continua sendo alvo de críticas
Outro ponto que permanece sem solução envolve o modelo de integração adotado pelo sistema de transporte de Natal.
Embora tecnicamente as regras tenham sido criadas para evitar sobreposição de viagens e possíveis fraudes tarifárias, o efeito prático para o usuário é o aumento da complexidade dos deslocamentos.
Em alguns casos, passageiros precisam desembarcar em um ponto e caminhar até outra parada para conseguir concluir a integração. A situação contrasta com o conceito moderno de mobilidade urbana, que busca justamente reduzir barreiras e facilitar as conexões entre diferentes linhas.
Programa avança, mas desafio estrutural permanece
A criação do cashback representa uma tentativa de estimular o transporte coletivo e revitalizar áreas tradicionais do comércio natalense. Entretanto, a chegada da segunda edição do programa evidencia que o principal desafio continua sendo a própria estrutura da rede de transporte.
Sem ampliação da cobertura, revisão das regras de integração e criação de novas conexões entre bairros e regiões centrais, parte da população seguirá sem condições reais de utilizar o benefício.
Enquanto isso, o cashback avança para mais um mês de operação carregando uma contradição evidente: a cidade incentiva o deslocamento para o Alecrim e a Cidade Alta, mas ainda não consegue garantir que todos os moradores tenham como chegar até lá utilizando o sistema convencional de ônibus.
Foto: Arquivo/POR DENTRO DO RN
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