Tarifa Zero no Brasil pode custar até R$ 110 bilhões por ano, estima NTU

Tarifa Zero no Brasil pode custar até R$ 110 bilhões por ano, estima NTU

Estimativa da NTU considera ônibus, sistemas sobre trilhos e aumento de 20% na oferta; entidade propõe novas fontes de financiamento para reduzir a dependência da tarifa

Uma eventual Tarifa Zero no Brasil em todo o transporte coletivo poderia exigir até R$ 110 bilhões por ano, considerando ônibus, sistemas sobre trilhos e uma ampliação de 20% da oferta para atender ao aumento esperado da demanda. A estimativa foi apresentada pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) durante o 39º Seminário Nacional NTU, realizado paralelamente à Lat.Bus 2026, em São Paulo.

O cálculo faz parte da discussão sobre financiamento do transporte coletivo apresentada na “Carta Brasil em Movimento”. O documento defende uma política permanente de financiamento para o setor e aponta a dependência da tarifa paga pelo passageiro como um dos fatores que dificultam a redução do preço das passagens e a melhoria dos serviços.

Segundo os dados apresentados pela NTU, o transporte coletivo perdeu cerca de 40% da demanda na última década. Em 2025, a demanda dos ônibus urbanos permanecia 22,5% abaixo do nível registrado em 2019. O transporte representa, em média, 20,7% do orçamento das famílias e pode chegar a 30% em algumas capitais. Cerca de 80% das receitas dos sistemas ainda dependem das tarifas.

NTU propõe mudar financiamento do transporte coletivo

A proposta apresentada pela NTU parte da ideia de que o passageiro não deve continuar respondendo pela maior parcela do financiamento do transporte coletivo por meio da tarifa.

A entidade propõe uma divisão dos custos entre diferentes beneficiários do sistema e políticas públicas. O modelo, denominado “Transporte para Todos”, está estruturado em três frentes: reformulação do Vale-Transporte, financiamento específico das gratuidades e criação de um benefício de mobilidade para famílias de baixa renda.

De acordo com os cálculos da associação, essas fontes poderiam financiar aproximadamente 85% dos custos do transporte coletivo urbano. Municípios que optassem pela Tarifa Zero poderiam complementar os recursos necessários com seus próprios orçamentos.

A proposta, portanto, não estabelece uma Tarifa Zero nacional de R$ 110 bilhões anuais. Esse valor é utilizado como referência para dimensionar quanto seria necessário para eliminar a cobrança direta dos passageiros em escala nacional, considerando também o aumento da oferta.

Vale-Transporte poderia gerar R$ 60 bilhões

Uma das principais propostas da NTU é a reformulação do Vale-Transporte.

A entidade defende a criação do Vale-Transporte do Trabalhador, com ampliação do benefício para trabalhadores contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), empregados domésticos e servidores públicos.

Pelo modelo apresentado, o desconto de até 6% atualmente suportado pelo trabalhador seria eliminado. O custo passaria a ser integralmente assumido pelo empregador.

A estimativa da NTU é que o novo modelo alcance aproximadamente 55 milhões de trabalhadores e gere perto de R$ 60 bilhões por ano para financiar os deslocamentos. Segundo a entidade, esse valor corresponderia a cerca de 55% dos custos do transporte coletivo urbano.

A mudança dependeria de alterações legais e de discussões envolvendo empregadores e trabalhadores, uma vez que modifica a distribuição do custo atualmente existente.

Gratuidades teriam financiamento específico

A segunda frente da proposta está relacionada ao financiamento das gratuidades existentes no transporte coletivo.

A NTU defende que benefícios concedidos por políticas de educação, assistência social e outras áreas não sejam incorporados ao custo distribuído entre os passageiros que pagam a passagem.

Conforme os dados do Anuário NTU 2025-2026 apresentados no documento, as gratuidades representam, em média, 22% do custo total dos sistemas. Em muitos municípios, esses benefícios acabam sendo financiados pelos usuários pagantes.

A proposta é que cada benefício tenha uma fonte específica de custeio vinculada ao respectivo orçamento público.

A NTU estima em aproximadamente R$ 25 bilhões anuais o volume relacionado às gratuidades. A separação dessa despesa teria como objetivo reduzir a pressão sobre a tarifa comum.

Vale-Transporte Social teria recursos federais

A terceira frente seria direcionada à população de baixa renda.

A NTU propõe a criação do Vale-Transporte Social para pessoas de famílias atendidas pelo Bolsa Família que não estejam incluídas no Vale-Transporte tradicional ou em outras gratuidades.

A referência apresentada é de 42 viagens mensais por beneficiário, calculadas com base na tarifa pública média nacional. Para financiar essa modalidade, a entidade estima a necessidade de recursos federais entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões por ano.

A proposta relaciona a mobilidade às políticas de transferência de renda, considerando que o acesso ao emprego, à educação, à saúde e a outros serviços depende da possibilidade de deslocamento.

O modelo de financiamento dessa parcela ainda depende de definição, incluindo a discussão sobre a utilização de recursos adicionais ou de verbas já previstas nos orçamentos das políticas sociais.

Tarifa Zero nacional exigiria aumento da oferta

Os R$ 110 bilhões anuais estimados pela NTU são apresentados como referência para retirar completamente a cobrança direta do passageiro em escala nacional.

O cálculo considera ônibus e sistemas sobre trilhos, além de uma ampliação de 20% na oferta de transporte. A expansão foi incluída porque a gratuidade pode elevar a quantidade de passageiros e exigir mais veículos, trabalhadores e viagens.

A discussão sobre o financiamento, portanto, envolve não apenas a retirada da tarifa, mas também a necessidade de recursos para acompanhar o aumento da demanda.

NTU defende política nacional para o transporte coletivo

A “Carta Brasil em Movimento” também propõe ampliar a discussão sobre o transporte coletivo para uma política nacional permanente.

A NTU defende que o setor deixe de ser tratado predominantemente como responsabilidade municipal e passe a integrar uma política nacional de financiamento.

A entidade relaciona a proposta à redução da participação do transporte coletivo nos deslocamentos urbanos. Segundo os dados apresentados, a demanda caiu aproximadamente 40% em uma década, enquanto alternativas individuais de transporte ganharam participação.

Para a NTU, a reversão desse cenário envolve recursos para melhoria da qualidade dos serviços, modernização da frota e medidas capazes de ampliar a utilização do transporte coletivo.

A discussão também envolve a capacidade de incorporar novas tecnologias aos sistemas. A indústria de transporte apresenta ônibus elétricos, veículos movidos por diferentes combustíveis, tecnologias de segurança, telemetria e soluções voltadas à redução de consumo e manutenção. A incorporação desses recursos depende, entre outros fatores, da capacidade de financiamento dos sistemas.

A proposta apresentada pela NTU reúne diferentes fontes de recursos para alterar a composição do financiamento do transporte coletivo. Entre os valores indicados estão até R$ 110 bilhões anuais como referência para uma Tarifa Zero nacional, aproximadamente R$ 60 bilhões com a reformulação do Vale-Transporte, cerca de R$ 25 bilhões para as gratuidades e entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões para o Vale-Transporte Social.

Fotos: Ciete Silvério/Prefeitura de São Paulo/Ilustração / Letícia Teixeira/PSA/Ilustração / Paulo Pinto/Agência Brasil/Ilustração / Prefeitura São Caetano do Sul/Ilustração

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