Iniciativas integram um movimento de ampliação das ferramentas digitais nos sistemas de transporte público
O reconhecimento facial no transporte público está ampliando sua presença nos sistemas de ônibus brasileiros, com aplicações que vão desde a liberação de gratuidades para passageiros idosos até o monitoramento de veículos e o auxílio na identificação de suspeitos de crimes. Experiências no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo mostram diferentes formas de utilização da tecnologia na operação do transporte coletivo.
Na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), a ferramenta passou a permitir o embarque de passageiros com mais de 65 anos sem a necessidade de apresentação de cartão físico. Já na Grande Vitória (ES), câmeras instaladas nos ônibus e terminais do Sistema Transcol são utilizadas no monitoramento da segurança e no apoio às investigações policiais.
As duas iniciativas integram um movimento de ampliação das ferramentas digitais nos sistemas de transporte público, com aplicações relacionadas à bilhetagem eletrônica, ao controle de acesso e à segurança dos passageiros.
Reconhecimento facial no transporte libera acesso à gratuidade no Rio Grande do Sul
Na Região Metropolitana de Porto Alegre, passageiros com mais de 65 anos que utilizam o sistema de bilhetagem TEU! já podem acessar linhas urbanas e metropolitanas por meio de reconhecimento facial. A funcionalidade atende usuários de seis municípios e permite a liberação da catraca a partir da identificação realizada por um equipamento instalado nos ônibus.
A tecnologia dispensa a apresentação do cartão físico utilizado anteriormente para acessar o benefício da gratuidade. O procedimento é realizado diretamente no validador, que efetua a leitura facial do passageiro e permite o embarque após a identificação.
O sistema está disponível em 1.031 ônibus. A implantação foi precedida por testes realizados ao longo de 2026 e começou em caráter experimental no dia 20 de junho. Posteriormente, o serviço foi disponibilizado para todos os beneficiários atendidos pela operação na região.

De acordo com as informações divulgadas pelo sistema TEU!, a solução foi desenvolvida para integrar a identificação dos passageiros ao funcionamento da bilhetagem eletrônica. O projeto envolveu 30 meses de trabalho, incluindo etapas relacionadas à arquitetura tecnológica, segurança, desempenho, privacidade e integração operacional.
Além de dispensar o porte do cartão, o reconhecimento facial é apresentado pelos responsáveis pelo sistema como um recurso para reduzir fraudes no acesso à gratuidade. A identificação biométrica permite relacionar a utilização do benefício ao passageiro cadastrado, sem depender exclusivamente da apresentação de um documento físico de transporte.
A iniciativa representa uma aplicação da tecnologia voltada diretamente à operação do transporte coletivo, na qual o reconhecimento facial é utilizado como mecanismo de validação do acesso ao serviço.
Sistema Transcol utiliza reconhecimento facial no monitoramento dos ônibus
Na Grande Vitória, o reconhecimento facial está integrado às ações de segurança do Sistema Transcol. A tecnologia é utilizada em conjunto com câmeras de videomonitoramento instaladas nos ônibus e nos terminais de integração, permitindo tanto o acompanhamento das ocorrências quanto o apoio às investigações policiais.
Dados divulgados pela Polícia Civil do Espírito Santo apontam que os roubos registrados dentro dos coletivos diminuíram de 2.054, entre janeiro e agosto de 2023, para 299 no mesmo período de 2026.
Em 2025, foram contabilizados 551 roubos nos oito primeiros meses do ano. Na comparação com 2026, o número representa uma redução de aproximadamente 45,7%.
O projeto-piloto de reconhecimento facial no Espírito Santo foi lançado em setembro de 2024. Posteriormente, a operação foi ampliada pela Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), alcançando, em junho de 2025, câmeras instaladas no interior dos ônibus do Transcol.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), os equipamentos também estão presentes nos dez terminais do sistema. A tecnologia utiliza inteligência artificial para comparar os rostos captados pelas câmeras com informações disponíveis nos bancos de dados das forças de segurança.
O reconhecimento facial também é empregado no sistema aquaviário da Região Metropolitana, ampliando sua utilização para além dos ônibus e dos terminais rodoviários.
As autoridades capixabas relacionam a redução das ocorrências a um conjunto de medidas que inclui policiamento, atuação das guardas municipais, videomonitoramento e ferramentas de inteligência. Dessa forma, os números divulgados consideram a atuação integrada dessas iniciativas, sem atribuir exclusivamente à identificação facial a diminuição dos roubos.
Imagens dos ônibus auxiliam investigações policiais
Além do monitoramento preventivo, o reconhecimento facial no transporte público passou a ser utilizado como ferramenta de apoio às investigações de crimes registrados dentro dos coletivos.
No Espírito Santo, imagens captadas pelas câmeras dos ônibus podem ser analisadas por policiais autorizados e submetidas ao sistema de reconhecimento facial. O cruzamento das informações com os bancos de dados da segurança pública auxilia na identificação de pessoas suspeitas de envolvimento em ocorrências.
Dois casos divulgados pela Polícia Civil exemplificam a utilização da tecnologia. Em um deles, as imagens contribuíram para identificar um homem investigado por tentativa de latrocínio. Em outra investigação, o recurso auxiliou na identificação de um suspeito de roubo cometido dentro de um ônibus.

As informações obtidas por meio do monitoramento foram utilizadas pelo Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic) no desenvolvimento das investigações e na realização das prisões relacionadas aos casos.
A utilização das imagens permite que os registros feitos durante a operação dos ônibus sejam incorporados ao trabalho das equipes policiais. Com isso, o videomonitoramento deixa de estar restrito ao acompanhamento das viagens e também passa a integrar os procedimentos de apuração de ocorrências.
O funcionamento da ferramenta depende da disponibilidade das imagens, da análise policial e do cruzamento com as informações acessíveis às equipes responsáveis pelas investigações.
Boletim de ocorrência continua necessário para investigar crimes
Apesar da ampliação do videomonitoramento e do reconhecimento facial, a Polícia Civil do Espírito Santo destaca que o registro formal das ocorrências permanece necessário para o trabalho das forças de segurança.
O boletim de ocorrência permite reunir informações sobre os locais, as linhas e os horários em que os crimes acontecem. Esses dados também auxiliam a Polícia Militar no planejamento das ações de policiamento e fornecem elementos para o início das investigações conduzidas pela Polícia Civil.
As autoridades apontam diferenças entre os padrões de roubos e furtos no transporte coletivo. Os roubos tendem a ocorrer com maior frequência em veículos menos ocupados, enquanto os furtos são favorecidos pela lotação, situação em que a movimentação e a distração dos passageiros podem dificultar a percepção da ação criminosa.
O registro das ocorrências, portanto, continua sendo uma fonte de informações para identificar padrões e direcionar as medidas de segurança, mesmo nos sistemas que já contam com câmeras e ferramentas de identificação facial.
Tecnologia reúne aplicações de bilhetagem e segurança no transporte coletivo
As experiências do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo demonstram aplicações distintas do reconhecimento facial no transporte público brasileiro.
Na Região Metropolitana de Porto Alegre, a tecnologia está diretamente relacionada à validação da gratuidade de passageiros idosos e à substituição do cartão físico no momento do embarque. Na Grande Vitória, o foco está no videomonitoramento, na identificação de suspeitos e no suporte às investigações policiais.
Embora tenham objetivos operacionais diferentes, os dois sistemas utilizam recursos de identificação facial integrados à infraestrutura do transporte coletivo. No primeiro caso, a ferramenta atua no controle de acesso e na bilhetagem. No segundo, está associada às câmeras e aos bancos de dados utilizados pelas forças de segurança.
O avanço dessas iniciativas amplia as possibilidades de utilização de tecnologias digitais nos ônibus e nos terminais, incorporando recursos de identificação biométrica às atividades de embarque, monitoramento e investigação.
A expansão dessas ferramentas também envolve questões relacionadas à segurança das informações, à privacidade dos passageiros e aos procedimentos de utilização dos dados biométricos, aspectos que integram os parâmetros técnicos considerados no desenvolvimento e na operação desses sistemas.
Foto: Alex Rocha/PMPA / Tânia Rêgo/Agência Brasil / Reprodução/Sampa News/Ilustração
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