A pesquisa ouviu 126 transportadoras paulistas entre junho e agosto de 2026
O aumento da proporção de biodiesel no diesel utilizado no Brasil está associado a relatos de falhas mecânicas e maior frequência de manutenção em frotas de transporte de cargas. Os problemas incluem entupimento de filtros, falhas no sistema de injeção e aumento dos custos de manutenção, conforme levantamento realizado pela Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp).
A pesquisa ouviu 126 transportadoras paulistas entre junho e agosto de 2026. Do total de participantes, 62,7% afirmaram ter percebido mudanças na operação de suas frotas após as alterações na composição do combustível.
Embora o levantamento tenha sido realizado exclusivamente com empresas de transporte de cargas, os resultados também interessam às operadoras de ônibus urbanos e rodoviários, que utilizam diesel submetido à mesma regra nacional de mistura obrigatória.
As ocorrências registradas, entretanto, representam relatos das empresas participantes e não comprovam, isoladamente, que o aumento do biodiesel seja a causa direta de cada falha mecânica.
Biodiesel no diesel: pesquisa aponta entupimento de filtros e falhas na injeção
O levantamento da Fetcesp identificou diferentes problemas relatados pelas transportadoras durante o período analisado.

Os dados foram coletados por técnicos do Programa Despoluir, sob supervisão do coordenador do programa em São Paulo, Flávio Teixeira Júnior. O Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC) ficou responsável pela compilação e tabulação das respostas.
Segundo o levantamento, 92,1% das empresas participantes mantêm programas estruturados de manutenção preventiva.
O resultado mostra que os relatos de falhas ocorreram mesmo em uma amostra na qual a maioria das transportadoras declarou adotar procedimentos regulares de manutenção.
A pesquisa, contudo, não apresenta uma comprovação individual da origem de cada defeito. Para estabelecer uma relação direta com a composição do combustível, é necessário considerar fatores como armazenamento do diesel, qualidade do produto recebido, características dos motores e condições de manutenção.
Mudança na mistura de biodiesel também envolve ônibus urbanos e rodoviários
A proporção de biodiesel misturada ao diesel comercializado no Brasil passou por alterações nos últimos anos.
Até abril de 2023, o percentual obrigatório era de 10%. Em agosto de 2025, a mistura chegou a 15%, composição conhecida como B15.
Os ônibus urbanos e rodoviários movidos a diesel estão sujeitos à mesma mistura obrigatória utilizada pelos caminhões. Por isso, os relatos das transportadoras de cargas podem servir de referência para o acompanhamento das condições operacionais das empresas de transporte de passageiros.
Os dois segmentos utilizam veículos com sistemas de alimentação de combustível, filtragem e injeção que podem apresentar características técnicas semelhantes, dependendo do modelo e da motorização.
Isso não significa, entretanto, que os percentuais registrados pela Fetcesp possam ser aplicados diretamente às frotas de ônibus.
As condições de circulação, a idade dos veículos, os modelos de motores, os locais de abastecimento e as rotinas de manutenção podem variar entre os segmentos.
Para identificar os efeitos sobre o transporte coletivo, são necessários levantamentos específicos com empresas de ônibus, incluindo dados de manutenção e registros de falhas durante a operação.
Falhas no diesel podem afetar a disponibilidade dos ônibus
Os problemas relacionados ao sistema de alimentação de combustível podem exigir a retirada temporária de veículos de circulação para inspeção e reparo.
No transporte coletivo, uma falha mecânica pode resultar em atraso, substituição do ônibus ou interrupção de uma viagem, dependendo das condições operacionais e da disponibilidade de veículos para reposição.
O impacto de eventuais problemas depende da frequência das ocorrências, do tempo necessário para manutenção e da estrutura de cada empresa.
Entre os indicadores que podem ser acompanhados pelas operadoras estão a frequência de substituição dos filtros, as ocorrências no sistema de injeção, o tempo de indisponibilidade dos ônibus e os locais de abastecimento.
O registro dessas informações permite comparar os problemas identificados com os fornecedores, lotes de combustível, veículos abastecidos e condições de armazenamento.
A análise também pode contribuir para diferenciar falhas mecânicas de problemas relacionados à qualidade do combustível ou à sua conservação.
B20 está previsto para 2030, enquanto B25 depende de avaliação técnica
A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu diretrizes para a ampliação gradual da participação do biodiesel no diesel comercializado no país.
O cronograma prevê a elevação progressiva da mistura, com a meta de alcançar 20% de biodiesel, o B20, em 2030.
Percentuais superiores a 15% dependem da avaliação da viabilidade técnica e de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
A legislação permite que o conselho estabeleça a mistura obrigatória dentro de uma faixa que chega a 25%, mas isso não significa que o B25 já esteja aprovado para comercialização obrigatória em uma data específica.
O governo também prevê a realização de testes com misturas superiores, incluindo o B25, para avaliar o comportamento dos combustíveis em diferentes condições de utilização.
O B15 é utilizado como referência para a comparação com percentuais mais elevados, inclusive em motores empregados no transporte rodoviário.
A avaliação técnica é uma etapa relevante para verificar o desempenho dos veículos e os possíveis efeitos sobre os sistemas de alimentação e manutenção antes de novas mudanças na composição do diesel.
Cuidados com o combustível e a manutenção dos ônibus
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aponta que a presença de água, impurezas e a deterioração do diesel armazenado podem contribuir para a formação de depósitos capazes de obstruir filtros e injetores.
Nas orientações relacionadas à adoção do B15, a agência recomendou atenção aos filtros, ao monitoramento de água e à drenagem dos fundos dos tanques.
Para as empresas de ônibus, os procedimentos de controle podem incluir:
- Conferência das condições do combustível recebido, com registro de fornecedor, data, lote e veículos abastecidos.
- Limpeza dos tanques e verificação da presença de água, com drenagem conforme as orientações técnicas aplicáveis.
- Inspeção dos filtros e acompanhamento da frequência de troca, respeitando as recomendações dos fabricantes.
- Controle do período de armazenamento do diesel e verificação do combustível mantido em tanques ou veículos parados por períodos prolongados.
- Registro das falhas de injeção e do tempo de indisponibilidade dos ônibus, com preservação de amostras e componentes quando necessária uma análise técnica.
Essas medidas podem auxiliar na prevenção de falhas e na identificação das causas de problemas mecânicos.
Um filtro obstruído, por exemplo, exige a avaliação das condições do combustível recebido, da forma como foi armazenado e das características do veículo em que ocorreu a falha.
O levantamento da Fetcesp aponta a necessidade de aprofundamento técnico para determinar os efeitos das mudanças na mistura sobre as operações das frotas.
Foto: Valter Campanato/ABr/Ilustração
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