Relatório da Presidência brasileira da COP30 classifica a eletrificação dos ônibus urbanos como tecnologia pronta para expansão e destaca desafios de financiamento, infraestrutura e operação
A eletrificação dos ônibus urbanos foi incluída entre as medidas que já podem ser ampliadas para reduzir a dependência mundial dos combustíveis fósseis. A avaliação consta no Mapa do Caminho para a Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis nos Sistemas Energéticos, documento apresentado pela Presidência brasileira da COP30 em 3 de novembro de 2026.
O relatório considera que os ônibus elétricos já possuem maturidade tecnológica e comercial para ampliar sua participação no transporte coletivo durante esta década. O documento também aponta que a principal barreira à expansão dessas frotas deixou de ser a disponibilidade dos veículos e passou a envolver questões como financiamento, infraestrutura de recarga, planejamento operacional e articulação entre os diferentes setores envolvidos.
As recomendações serão discutidas na COP31, prevista para ocorrer entre 9 e 20 de novembro de 2026, em Antalya, na Turquia. A fabricante brasileira Eletra participará dos debates, apresentando experiências nacionais de implantação da eletromobilidade e modelos de negócios relacionados à substituição dos ônibus a diesel.
O documento, elaborado após consultas internacionais com governos, instituições financeiras, especialistas, empresas e organizações da sociedade civil, possui 182 páginas. Seu conteúdo não estabelece obrigações de compra de veículos elétricos ou prazos compulsórios para os países, mas apresenta orientações para transformar compromissos climáticos em medidas práticas.
Ônibus elétricos estão entre as tecnologias prontas para expansão até 2030
No capítulo dedicado ao transporte, o Mapa do Caminho classifica as tecnologias conforme seu estágio de desenvolvimento e possibilidade de aplicação. As soluções são divididas entre aquelas prontas para expansão até 2030, as que ainda precisam ampliar sua escala até aproximadamente 2035 e as transformações de longo prazo, com horizonte que pode chegar a 2050.
Os ônibus elétricos urbanos aparecem no primeiro grupo. Segundo a avaliação, esses veículos já podem substituir o diesel em operações de transporte coletivo, especialmente em linhas com trajetos recorrentes e utilização diária elevada.
A substituição, entretanto, exige planejamento. O relatório identifica três condições principais para viabilizar a expansão das frotas.
A primeira é a implantação de infraestrutura de carregamento nas garagens, com possibilidade de instalação de pontos de recarga rápida em áreas urbanas, conforme as características da operação.
A segunda envolve a reorganização do funcionamento das linhas, considerando itinerários, autonomia dos veículos, consumo de energia e programação dos períodos de carregamento.
A terceira é a coordenação entre fabricantes, empresas operadoras, fornecedores de energia, instituições financeiras e gestores públicos.
O documento também destaca que os custos de aquisição, a infraestrutura elétrica e a capacidade de gerenciamento das novas frotas precisam ser considerados nos projetos de eletrificação.
Eletra apresentará experiências brasileiras na COP31
A participação da Eletra na COP31 terá como foco demonstrar diferentes possibilidades de implantação da eletromobilidade. A empresa, sediada em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, desenvolve sistemas de tração elétrica, gerenciamento de energia e chassis para ônibus.
A diretora-presidente da fabricante, Milena Braga Romano, participará de painéis sobre tecnologia brasileira, cooperação internacional e oportunidades relacionadas à indústria nacional.
Entre os exemplos que serão apresentados estão o modelo de subvenção para aquisição de ônibus elétricos adotado em São Paulo, a locação de veículos elétricos em São José dos Campos e os serviços de consultoria especializada para projetos de eletrificação.
A proposta é mostrar que a substituição dos ônibus a diesel não depende exclusivamente da fabricação dos veículos. Também envolve financiamento, planejamento das operações, infraestrutura de carregamento e definição das responsabilidades entre empresas e poder público.
A experiência brasileira em diferentes condições de operação também será utilizada como referência. As características das linhas, o relevo, o clima, a quantidade de passageiros e a infraestrutura disponível influenciam a escolha dos veículos e a organização dos sistemas de recarga.
São Paulo utiliza subvenção para financiar ônibus elétricos
Um dos modelos apresentados pela Eletra é o adotado pela Prefeitura de São Paulo para estimular a renovação da frota municipal.
A administração estabeleceu um mecanismo de subvenção para investimento que considera a diferença entre os preços de referência dos ônibus elétricos e os valores de veículos equivalentes movidos a diesel.
Regulamentada em novembro de 2023, a iniciativa procura reduzir a barreira representada pelo investimento inicial necessário para a aquisição dos veículos elétricos.
Os recursos utilizados pela Prefeitura têm origem em operações de financiamento com instituições nacionais e internacionais, entre elas Banco do Brasil, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial, BNDES e Caixa Econômica Federal.
O mecanismo é direcionado à aquisição dos veículos e não deve ser confundido com os subsídios destinados ao custeio diário do transporte público.
A experiência também evidencia a necessidade de investimentos complementares em garagens, carregadores e infraestrutura elétrica.
EletraConsult oferece suporte para implantação da eletromobilidade
A fabricante também pretende apresentar a EletraConsult, serviço de consultoria voltado a empresas operadoras e administrações públicas interessadas na substituição de frotas convencionais por veículos elétricos.
A atuação abrange desde os estudos iniciais até o acompanhamento da operação. Entre as atividades estão a análise das características das linhas, avaliação das garagens, planejamento da infraestrutura de carregamento e estruturação dos modelos de financiamento.
O serviço também considera aspectos como autonomia, consumo de energia, quantidade de passageiros, manutenção, vida útil dos componentes e disponibilidade de energia elétrica.
A proposta está relacionada às recomendações do relatório da COP30, que aponta a capacitação técnica e a coordenação entre instituições como condições para ampliar a utilização dos ônibus elétricos.
Eletra prevê triplicar capacidade produtiva
A participação na COP31 também será utilizada pela empresa para apresentar os avanços registrados desde a conferência realizada em Belém, em novembro de 2025.
Nesse período, a Eletra ampliou seu portfólio, desenvolveu uma linha própria de chassis elétricos e avançou em projetos em diferentes mercados brasileiros.
A fabricante também iniciou um ciclo de investimentos industriais com previsão de triplicar sua capacidade produtiva.
A expansão está relacionada ao crescimento dos projetos de eletrificação no Brasil e à possibilidade de atender mercados internacionais.
O desenvolvimento de chassis próprios amplia a participação da companhia na concepção e integração dos veículos, além de envolver a formação de profissionais especializados e o fortalecimento da cadeia industrial nacional.
Transporte responde por 22% das emissões globais de CO₂ da queima de combustíveis fósseis
Os dados do Mapa do Caminho ajudam a explicar a importância da eletrificação na agenda climática internacional.
Segundo o relatório, o transporte representa aproximadamente 28% do consumo final de energia mundial e responde por quase um quarto do consumo global de combustíveis fósseis.
Em 2024, as emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis no setor alcançaram aproximadamente 7 bilhões de toneladas, equivalentes a 22% das emissões globais dessa origem.
A matriz energética do transporte continua concentrada no petróleo e seus derivados, que representam aproximadamente 90% do consumo. O gás natural responde por cerca de 4%, a bioenergia por outros 4% e a eletricidade por aproximadamente 2%.
No transporte rodoviário, a dependência é ainda maior. O modal respondeu por cerca de 75% da energia utilizada pelo setor em 2024, enquanto a eletricidade representou menos de 1% de sua matriz energética.
O relatório também apresenta uma comparação de eficiência: considerando como referência um índice de consumo de 100 para um veículo com motor a combustão, um veículo elétrico necessita de aproximadamente 32 unidades de energia final para oferecer o mesmo serviço de mobilidade.
Relatório também recomenda investimentos em transporte coletivo e mobilidade ativa
O Mapa do Caminho não restringe a transição energética à substituição dos veículos convencionais por modelos elétricos.
O documento também recomenda investimentos em sistemas de transporte público de alta capacidade, ferrovias, mobilidade ativa e integração entre diferentes modalidades.
A ampliação de corredores exclusivos de ônibus, sistemas BRT, metrôs e trens metropolitanos aparece como exemplo de medidas compatíveis com a reorganização dos deslocamentos urbanos.
O relatório inclui ainda a promoção de caminhadas e do uso de bicicletas, além do planejamento integrado entre mobilidade e ocupação do território.
A proposta considera que a redução do consumo de combustíveis fósseis depende também da oferta de alternativas ao transporte individual motorizado e da organização das cidades para diminuir deslocamentos desnecessários.
Nesse contexto, a eletrificação dos ônibus é apresentada como uma medida complementar aos investimentos em infraestrutura e à ampliação da oferta de transporte coletivo.
O documento também analisa outras soluções para os diferentes modais, incluindo biocombustíveis, hidrogênio de baixas emissões, eletrificação ferroviária e combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo.
COP31 terá debate sobre ampliação da participação da eletricidade
A COP31, que será realizada em Antalya, na Turquia, entre 9 e 20 de novembro de 2026, dará continuidade às discussões sobre a implementação dos compromissos climáticos.
Entre as iniciativas apresentadas pela presidência turca está a proposta 35-by-35, que estabelece como objetivo elevar a participação da eletricidade no consumo final mundial de energia para 35% até 2035.
Atualmente, esse percentual está pouco acima de 20%.
A iniciativa envolve a eletrificação dos transportes, da indústria e das edificações, além da ampliação da geração de energia de baixas emissões, das redes elétricas e dos mecanismos de financiamento.
O Mapa do Caminho elaborado pela Presidência brasileira da COP30 deverá contribuir para a continuidade das discussões internacionais sobre a redução da dependência dos combustíveis fósseis.
Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília
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