Programa Vai de Graça deve começar no primeiro trimestre de 2027 e prevê gratuidade nos ônibus, metrô, VLT e transporte complementar, além de mudanças na remuneração das operadoras
A Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Ceará trabalham na implantação de um programa de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. Batizada de Vai de Graça, a iniciativa tem previsão de começar no primeiro trimestre de 2027 e deverá contemplar ônibus municipais, transporte complementar por vans e topics, metrô e Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
A proposta foi anunciada pelo governador Elmano de Freitas e pelo prefeito Evandro Leitão. Além da gratuidade para os passageiros, o projeto prevê discussões sobre mudanças no modelo de financiamento do sistema de transporte coletivo da capital cearense.
A intenção é permitir que os usuários utilizem os serviços sem pagar passagem aos sábados e domingos. A possibilidade de estender o benefício aos feriados também foi mencionada, mas ainda depende de regulamentação.
A gratuidade deverá atender tanto os moradores de Fortaleza quanto visitantes e pessoas que estejam de passagem pela cidade, sem exigência de comprovação de residência.
Apesar dos anúncios, ainda não foram divulgadas todas as regras de funcionamento, incluindo os procedimentos de embarque, a eventual necessidade de identificação dos passageiros e os mecanismos de controle das viagens realizadas.
Tarifa zero em Fortaleza poderá mudar remuneração das empresas de ônibus
Uma das principais discussões relacionadas ao Vai de Graça envolve a forma como as empresas responsáveis pelo transporte coletivo municipal serão remuneradas.
A Prefeitura estuda substituir o modelo baseado principalmente na arrecadação de passagens por um sistema de pagamento relacionado à quilometragem efetivamente percorrida pelos veículos.
Nesse formato, o poder público estabelece as linhas, os itinerários, os horários e a quantidade de viagens necessárias. As empresas recebem pelos serviços executados, conforme critérios definidos em contrato.
A mudança permitiria separar o custo da operação do valor cobrado dos passageiros. Dessa maneira, a remuneração das concessionárias não dependeria diretamente da quantidade de pessoas que pagam passagem.
O modelo também possibilitaria manter linhas consideradas necessárias para o atendimento da população, mesmo quando apresentam menor demanda de passageiros pagantes.
Atualmente, as empresas recebem recursos provenientes da arrecadação tarifária e de subsídios públicos destinados a complementar os custos do sistema.
A redução da demanda pelo transporte coletivo nos últimos anos, especialmente após a pandemia de Covid-19, ampliou as dificuldades de financiamento da operação.
A proposta de pagamento por quilômetro rodado procura estabelecer uma relação mais direta entre a prestação do serviço e os valores recebidos pelas operadoras.
Entretanto, a implantação desse formato exigirá mecanismos de fiscalização. Será necessário acompanhar a quilometragem executada, o cumprimento das viagens, a regularidade dos horários, a conservação dos veículos e a qualidade do atendimento.
Também deverão ser estabelecidos critérios para calcular os custos operacionais, considerando combustível ou energia, mão de obra, manutenção, depreciação da frota e investimentos das empresas.
Concessão do transporte de Fortaleza chega ao prazo final em 2027
A discussão sobre a remuneração das empresas ocorre em um momento de transição contratual do transporte público de Fortaleza.
A concessão municipal atualmente em vigor foi estabelecida em maio de 2012, com prazo de 15 anos e possibilidade de prorrogação por igual período.
Na licitação, o sistema foi dividido em cinco áreas operacionais, atendidas pelos consórcios Leste, Antônio Bezerra, Expresso 05, Parangaba e Messejana.
O contrato original considerava a arrecadação das passagens e os subsídios públicos como componentes do financiamento do serviço.
Quando a concessão foi assinada, a tarifa inteira custava R$ 2,00. Em janeiro de 2026, o valor passou de R$ 4,50 para R$ 5,40, enquanto a tarifa estudantil permaneceu em R$ 1,50.
A aproximação do encerramento do prazo contratual abre espaço para discussões sobre a reorganização do sistema e a eventual adoção de novas regras de remuneração.
A mudança poderá exigir alterações nos contratos atuais ou a definição de um novo modelo para o próximo período de concessão. Até o momento, entretanto, não há definição pública sobre o encaminhamento jurídico e administrativo que será adotado.
Subsídios ao transporte público de Fortaleza chegam a R$ 18 milhões mensais
Outro ponto que precisa ser resolvido é o financiamento da gratuidade.
Em 2026, os subsídios destinados ao transporte coletivo municipal de Fortaleza, incluindo empresas de ônibus e cooperativas do transporte alternativo, chegaram a aproximadamente R$ 18 milhões mensais, conforme informações da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor).
No início do ano, o valor era de R$ 16,5 milhões por mês. O aumento ocorreu principalmente em razão da ampliação dos benefícios tarifários, incluindo a expansão da gratuidade estudantil.
Mantido durante 12 meses, o repasse de R$ 18 milhões representaria um volume anualizado de R$ 216 milhões. Esse cálculo, porém, não corresponde necessariamente ao total efetivamente desembolsado ao longo de 2026.
Também não significa que os recursos atuais serão suficientes para financiar o Vai de Graça.
A implantação da tarifa zero poderá aumentar a procura pelo transporte coletivo, exigindo mais veículos em circulação e ampliação da oferta de viagens.
Nesse cenário, os custos adicionais não estarão limitados à receita que deixará de ser arrecadada nas catracas. Também poderão envolver maior consumo de combustível ou energia, manutenção, quilometragem e contratação de trabalhadores.
O Governo do Ceará já participa indiretamente do financiamento do transporte municipal por meio de medidas tributárias, incluindo benefícios relacionados ao diesel e ao IPVA dos veículos.
A expectativa é ampliar a participação estadual no programa, mas ainda não foram apresentados os valores e a divisão das responsabilidades financeiras entre o Estado e a Prefeitura.
Região Metropolitana de Fortaleza já utiliza pagamento por quilômetro rodado
A remuneração das empresas de transporte por quilômetro percorrido já é utilizada no sistema metropolitano do Ceará.
O Governo estadual implantou esse modelo após a licitação realizada em 2024, que estabeleceu a remuneração das operadoras do transporte intermunicipal da Região Metropolitana de Fortaleza com base na quilometragem executada.
A Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce) apresentou o formato como uma alternativa para ampliar a previsibilidade financeira, facilitar a fiscalização e permitir a adoção de políticas tarifárias sem transferir integralmente o risco da arrecadação para as empresas.
O sistema também esteve relacionado a exigências de climatização dos veículos e à manutenção dos valores das passagens metropolitanas.
Apesar da experiência estadual, a aplicação do mesmo princípio no transporte municipal exigirá estudos específicos.
Isso porque o sistema metropolitano é administrado pelo Governo do Ceará, enquanto o transporte coletivo de Fortaleza está sob responsabilidade da Etufor. As estruturas contratuais, operacionais e financeiras são diferentes.
Frota de ônibus de Fortaleza enfrenta necessidade de renovação
A preparação para a tarifa zero também ocorre em um período de discussões sobre a renovação da frota de ônibus da capital.
A idade média dos veículos urbanos de Fortaleza chegou a aproximadamente nove anos, segundo informação divulgada pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus).
O número está acima do padrão histórico de três anos e meio a quatro anos mencionado pelo representante empresarial.
Para enfrentar essa situação, a Prefeitura iniciou em 2026 um programa que prevê a incorporação de 120 ônibus novos até o final do ano.
Os veículos anunciados contam com ar-condicionado, recursos de acessibilidade, entradas USB, câmeras internas e motorização com padrão ambiental Euro VI.
A administração municipal também estabeleceu a meta de ampliar a climatização da frota.
Com a eventual implantação da gratuidade, o planejamento da oferta de transporte deverá considerar possíveis mudanças na quantidade de passageiros aos sábados e domingos.
Atualmente, a programação dessas datas costuma apresentar uma oferta diferente daquela dos dias úteis, acompanhando a demanda historicamente menor em diversas linhas.
Caso a gratuidade estimule novos deslocamentos para atividades de lazer, comércio e visitas familiares, será necessário avaliar a necessidade de reforçar determinadas linhas e regiões da cidade.
Gratuidade nas eleições de 2026 aumentou a procura pelo transporte
Fortaleza também possui experiências recentes de transporte gratuito que poderão contribuir para o planejamento do Vai de Graça.
Durante o primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro, a Prefeitura autorizou a gratuidade no transporte coletivo e ampliou a oferta de veículos.
Na ocasião, a Etufor registrou mais de 191 mil passageiros transportados, aproximadamente 66 mil acima do volume de 125 mil passageiros utilizado como referência para domingos comuns. O crescimento foi de cerca de 53%.
Para o segundo turno, realizado em 25 de outubro, a administração municipal anunciou a disponibilização de 378 ônibus extras e outros 20 veículos reservas.
Os números demonstram a possibilidade de aumento da demanda quando o pagamento da passagem deixa de ser uma condição para utilizar o transporte coletivo.
Entretanto, a movimentação registrada durante as eleições não representa necessariamente o comportamento que será observado em todos os fins de semana, já que os deslocamentos para votação possuem características próprias.
Estudantes de Fortaleza já contam com duas passagens gratuitas por dia
A capital cearense também possui uma política de gratuidade direcionada aos estudantes.
Desde 1º de julho de 2026, usuários com carteira estudantil emitida pela Etufor passaram a ter direito a duas passagens gratuitas por dia, inclusive durante férias escolares, fins de semana e feriados.
O benefício integra o programa Passe Livre Todo Dia, desenvolvido pela Prefeitura com participação do Governo do Ceará.
Na implantação da medida, a administração municipal informou que aproximadamente 300 mil estudantes poderiam ser contemplados. O investimento adicional anunciado foi de R$ 8,5 milhões por ano.
A diferença em relação ao Vai de Graça está na abrangência. Enquanto o Passe Livre Todo Dia atende estudantes cadastrados, a nova proposta pretende estender a gratuidade a todos os passageiros nos períodos estabelecidos.
Vai de Graça ainda depende de definição sobre custos e funcionamento
Apesar dos anúncios realizados pelo Governo do Ceará e pela Prefeitura de Fortaleza, diversos pontos do programa ainda precisam ser regulamentados.
Entre as questões pendentes estão a data exata de início da gratuidade, a inclusão formal dos feriados, o custo anual da iniciativa e a participação financeira de cada ente público.
Também deverão ser estabelecidos os procedimentos de utilização dos serviços, os mecanismos de controle das viagens e eventuais adaptações nos sistemas de bilhetagem.
Outra definição importante envolve a possível implantação simultânea da tarifa zero e da remuneração das empresas por quilômetro rodado.
A programação de linhas, os intervalos entre viagens e a quantidade de veículos necessários também fazem parte das discussões técnicas para a implementação do programa.
O início do Vai de Graça está previsto para o primeiro trimestre de 2027, conforme a expectativa anunciada pela Prefeitura de Fortaleza.
Foto: Paulo Henrique Felício
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