Relatório da Operação Vectura Corrupta foi encaminhado à Justiça e inclui ex-presidente da Câmara Municipal, ex-dirigente da SPTrans e empresários do setor de transporte
A Polícia Civil de São Paulo concluiu uma etapa da investigação sobre a suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de ônibus, contratos de transporte público e estruturas da administração municipal. O relatório final da Operação Vectura Corrupta, encaminhado à Justiça em 6 de novembro de 2026, aponta 13 pessoas como suspeitas de envolvimento com interesses da organização criminosa.
Entre os indiciados estão o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, e empresários ligados ao setor de transporte coletivo.
A Polícia Civil também solicitou à Justiça a prisão preventiva dos 13 investigados. O pedido ainda depende de decisão judicial, assim como as demais medidas relacionadas ao inquérito.
Uma das principais conclusões apresentadas pelos investigadores é a suspeita de que 12 das 22 empresas consideradas na apuração estariam sob controle ou influência direta ou indireta da facção. A hipótese ainda precisa ser analisada pelas autoridades competentes e não representa comprovação judicial de envolvimento de todas as companhias mencionadas.
Milton Leite é investigado por suposta participação em interesses do PCC
Milton Leite está preso desde 18 de setembro de 2026, quando se apresentou à Polícia Civil após a expedição de um mandado de prisão temporária.
O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo nega qualquer ligação com o PCC e também contesta a suspeita de que seria o verdadeiro proprietário da Transwolff, empresa que operava linhas de ônibus na zona sul da capital paulista.
Segundo a investigação, Leite teria participado de articulações relacionadas a empresas de transporte que estariam sob influência da organização criminosa.
O relatório policial também atribui ao ex-parlamentar possíveis condutas de ocultação ou destruição de provas e manutenção de contatos externos durante o período de detenção. A defesa nega irregularidades.
A Polícia Civil considera que as relações empresariais e políticas investigadas podem ter sido utilizadas para ampliar a influência da facção sobre atividades relacionadas ao transporte coletivo municipal.
O pedido de prisão preventiva apresentado pela corporação ainda será analisado pela Justiça. A medida é diferente da prisão temporária e depende do preenchimento dos requisitos legais para sua decretação.
Ex-presidente da SPTrans e empresários também foram indiciados
A investigação alcança pessoas que tiveram participação na administração pública e na estrutura empresarial do transporte coletivo paulistano.
Entre os nomes citados estão:
- Levi dos Santos Oliveira: ex-presidente da SPTrans, investigado por supostos contatos com intermediários do PCC para tratar de interesses relacionados a empresas e à operação do sistema.
- Paulo Sirqueira Korek Farias: empresário ligado à A2 Transportes e à Translider, investigado por suspeitas relacionadas a transações empresariais e possíveis vínculos com pessoas apontadas como integrantes ou intermediárias da organização criminosa.
- Carla de Paula Muller: investigada por possível intermediação de interesses relacionados à facção.
- Danilo Marco Morgado Silva: citado nas apurações sobre possível participação da organização criminosa no financiamento de campanhas eleitorais.
- José Daniel Satilite: apontado pelos investigadores como possível intermediário em articulações entre empresários, pessoas ligadas ao poder público e suspeitos de integrar o PCC.
- Levi dos Santos Oliveira ocupou a presidência da SPTrans durante períodos das administrações municipais de Bruno Covas e Ricardo Nunes.
A investigação procura esclarecer se pessoas ligadas à estrutura pública responsável pela gestão do transporte coletivo teriam participado de articulações para favorecer empresas ou interesses relacionados à organização criminosa.
No caso dos empresários, as apurações envolvem possíveis transações comerciais, relações societárias e negociações envolvendo empresas de ônibus.
Os investigados possuem situações individuais distintas. O indiciamento não significa que todos tenham participado dos mesmos acontecimentos ou desempenhado funções equivalentes.
Polícia investiga possível influência do PCC sobre 12 empresas de ônibus
Outro ponto da Operação Vectura Corrupta envolve a suspeita de influência da organização criminosa sobre parte significativa das empresas que operam o transporte coletivo de São Paulo.
A hipótese apresentada pelos investigadores considera 12 das 22 operadoras analisadas na apuração.
Entre as empresas mencionadas nos documentos estão Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, MoveBus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus, posteriormente UPBus, Norte Buss e Spencer.
A relação foi construída a partir de mensagens, documentos e outros elementos reunidos durante as investigações.
A inclusão dos nomes na apuração, entretanto, não comprova isoladamente que todas as empresas tenham sido controladas pelo PCC. Também não permite atribuir responsabilidade criminal automaticamente a todos os sócios, dirigentes ou trabalhadores dessas companhias.
A situação operacional e contratual das empresas também apresenta diferenças, incluindo alterações societárias, mudanças na prestação dos serviços e encerramento de contratos.
O percentual de 12 entre 22 empresas representa uma hipótese investigativa, não uma decisão judicial reconhecendo que a organização criminosa controla essas operadoras.
Investigação anterior envolveu pedido de afastamento de 43 gestores
Antes da conclusão do inquérito, a Polícia Civil já havia solicitado medidas administrativas contra dirigentes de empresas de ônibus investigadas.
Em setembro de 2026, a corporação pediu à Justiça o afastamento de 43 pessoas ligadas à administração de nove empresas do transporte coletivo paulistano.
A solicitação envolvia A2 Transportes, Alfa Rodobus, Allianz Transportes, Auto Viação Transcap, Imperial Transportes Urbanos, MoveBus, Norte Buss, Pêssego Transportes e Spencer.
A intenção era impedir que os gestores relacionados continuassem exercendo determinadas funções administrativas, participassem de decisões societárias ou retirassem benefícios econômicos das empresas durante o andamento das investigações.
A Polícia Civil também considerava a possibilidade de intervenção da SPTrans para assegurar a continuidade dos serviços, caso os afastamentos fossem determinados.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, considerou a medida coletiva prematura naquele momento.
O entendimento apresentado pelo órgão foi de que ainda era necessário individualizar melhor as condutas atribuídas aos 43 nomes. Também foi apontado o risco de comprometimento do funcionamento do transporte coletivo caso dezenas de administradores fossem afastados simultaneamente.
O pedido de indiciamento de 13 pessoas representa uma etapa diferente da investigação. Até o momento, não há confirmação de que a solicitação anterior de afastamento dos 43 gestores tenha sido integralmente renovada ou autorizada.
Transwolff teve contratos encerrados pela Prefeitura de São Paulo
A Transwolff é uma das empresas que voltaram ao centro das investigações. A companhia já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024, que apurou possíveis relações entre empresas de ônibus e esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao crime organizado.
Após a operação, a Prefeitura de São Paulo adotou medidas administrativas para garantir a continuidade dos serviços, incluindo a intervenção na operação da empresa.
Em dezembro de 2025, a administração municipal decretou a caducidade dos contratos da Transwolff, transferindo a gestão dos serviços para a SPTrans.
Na ocasião, a empresa operava 133 linhas e atendia aproximadamente 555 mil passageiros. A Prefeitura informou que as medidas buscavam assegurar a continuidade do transporte coletivo e os compromissos com trabalhadores e fornecedores.
A situação da Transwolff, entretanto, não deve ser confundida com a das demais empresas mencionadas na Operação Vectura Corrupta. O encerramento dos contratos da companhia não representou a perda automática das concessões pelas outras operadoras investigadas.
No caso da A2 Transportes, a administração municipal também passou a avaliar providências administrativas após a operação de setembro, incluindo medidas relacionadas aos dirigentes mencionados nas apurações.
Eventuais intervenções em outras empresas dependerão de procedimentos próprios e de fundamentos jurídicos específicos.
Ministério Público analisará indiciamentos e pedidos de prisão
Com a conclusão do inquérito policial, caberá ao Ministério Público de São Paulo avaliar os elementos reunidos pela Polícia Civil e decidir se apresenta denúncia criminal contra os investigados.
Caso uma denúncia seja oferecida e recebida pela Justiça, os envolvidos passarão à condição de réus em uma ação penal.
A solicitação de prisão preventiva também depende de análise judicial específica.
As suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro, às movimentações financeiras e às relações empresariais poderão continuar sendo apuradas independentemente do encaminhamento das acusações relacionadas à organização criminosa.
A investigação também envolve a análise de possíveis mecanismos utilizados para ocultar os verdadeiros controladores de empresas, movimentar recursos e estabelecer relações comerciais envolvendo contratos públicos.
Até o momento, os indiciamentos não representam condenações. As acusações permanecem sujeitas à análise do Ministério Público, ao direito de defesa e às decisões judiciais.
Foto: Ciete Silvério/Prefeitura de São Paulo/Ilustração
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