Crédito para renovação de frota impulsiona compra de ônibus, mas desafio do transporte urbano permanece

Crédito para renovação de frota impulsiona compra de ônibus, mas desafio do transporte urbano permanece

Programa Move Brasil 2 já comprometeu R$ 1,5 bilhão em financiamentos para renovação de ônibus, enquanto setor ainda enfrenta queda de passageiros, envelhecimento da frota e dificuldades de acesso ao crédito

A linha de crédito Move Brasil 2, criada pelo Governo Federal para estimular a renovação da frota de ônibus, registrou elevada procura pelas empresas do setor nas primeiras semanas de operação. Até o início de julho, R$ 1,5 bilhão dos R$ 2 bilhões disponibilizados para o segmento já estavam comprometidos, embora o programa permaneça aberto até o dia 28 de agosto.

O volume contratado demonstra o interesse das empresas em aproveitar condições de financiamento mais favoráveis para renovar veículos cuja substituição vinha sendo adiada nos últimos anos. Segundo representantes do setor, o movimento não indica necessariamente um crescimento estrutural da demanda por ônibus, mas reflete a retomada de investimentos que haviam sido postergados em razão das elevadas taxas de juros praticadas no mercado.

A taxa oferecida pelo Move Brasil 2 gira em torno de 13% ao ano, enquanto linhas tradicionais de financiamento, como o Finame, operam com juros entre 19% e 20% ao ano. A diferença permitiu que empresas retomassem projetos de renovação de frota anteriormente considerados inviáveis.

Move Brasil 2 impulsiona encomendas de ônibus

De acordo com Fábio D’Angelo, diretor do Scania Banco, o programa funcionou como um incentivo para que empresários concretizassem investimentos já planejados.

Segundo ele, o financiamento subsidiado representou um suporte para a tomada de decisão das empresas, permitindo a realização de compras que haviam sido adiadas por causa do custo do crédito.

Na Marcopolo, os efeitos já aparecem na carteira de pedidos. Conforme informou Alexandre Cervelin, gerente comercial da fabricante para o mercado interno, o Move Brasil 2 respondeu pela comercialização de mais de 600 ônibus.

Desse total, aproximadamente metade dos veículos foi destinada ao segmento de fretamento. Outros 30% atenderam ao transporte rodoviário e cerca de 20% foram adquiridos para operações urbanas.

Segundo Cervelin, parte das empresas voltou a investir após interromper projetos de renovação da frota devido aos juros elevados, enquanto outras ampliaram pedidos que já estavam previstos.

Mercado de ônibus urbanos continua em retração

Apesar do aumento nas encomendas favorecidas pelo programa, o mercado de ônibus urbanos continua apresentando retração.

Em 2025, foram licenciadas 14.533 unidades, correspondendo a 50,4% do mercado nacional de ônibus. Já no início de 2026, os emplacamentos registraram queda de 16%, mesmo com crescimento de 5,9% na produção.

Os recursos do Move Brasil 2 poderão financiar entre 1.000 e 1.300 ônibus urbanos, número considerado insuficiente diante da necessidade estimada pelo setor.

Atualmente, um ônibus urbano custa entre R$ 800 mil e R$ 900 mil, enquanto modelos rodoviários podem alcançar R$ 2,5 milhões.

Segundo estimativas apresentadas pela indústria, seria necessária a substituição de mais de 30 mil veículos urbanos, com investimento aproximado de R$ 30 bilhões, para reduzir a idade média da frota nacional de quase sete anos para menos de cinco anos.

Representantes da Marcopolo afirmam que os recursos disponibilizados pelo programa representam apenas parte da necessidade de renovação existente no país.

Queda de passageiros reduz capacidade de investimento

Além da necessidade de renovação da frota, o setor enfrenta outro desafio: a redução do número de passageiros transportados.

Dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostram que os ônibus urbanos realizavam, em média, 40,4 milhões de viagens diárias em 2019. Em 2025, esse número caiu para 29,9 milhões, uma redução de 10,5 milhões de viagens por dia, equivalente a 26%.

Para 2026, a entidade projeta recuperação para 32,6 milhões de viagens diárias, patamar que ainda permanecerá 19% abaixo do registrado antes da pandemia.

Levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) também aponta redução da participação do ônibus na mobilidade urbana. Em 2017, o modal representava 45,2% dos deslocamentos urbanos. Em 2024, esse índice caiu para 30,9%.

Entre os principais motivos apontados pelos usuários que migraram para outros meios de transporte estão o desconforto, a falta de flexibilidade de horários e o tempo de viagem.

Quando considerados apenas os fatores relacionados ao transporte coletivo, o desconforto aparece novamente como principal motivo, seguido pela insegurança e pela presença de ônibus antigos.

Segundo a CNT, apenas 32,6% da frota urbana brasileira possui sistema de ar-condicionado.

Acesso ao crédito continua sendo um desafio

Mesmo com programas de financiamento disponíveis, representantes do setor afirmam que muitas empresas continuam enfrentando dificuldades para acessar crédito.

Segundo Edmundo Pinheiro, presidente da NTU, a redução da demanda durante a pandemia e o atraso em reajustes tarifários registrados em algumas capitais afetaram a capacidade financeira das operadoras.

Além disso, contratos de concessão desequilibrados, incertezas relacionadas aos subsídios públicos e dificuldades na previsibilidade das receitas reduzem a confiança das instituições financeiras na concessão de novos financiamentos.

Atualmente, o Refrota é o principal programa permanente destinado à renovação da frota urbana. Operado com recursos do FGTS, ele oferece taxas em torno de 10% ao ano, mas exige que as empresas atendam critérios como concessão regular, bilhetagem eletrônica, telemetria e veículos equipados com ar-condicionado.

O Move Brasil 2 possui características diferentes por ser uma linha temporária, aberta também aos segmentos de fretamento e transporte rodoviário.

Renovação da frota também envolve novas tecnologias

Além da substituição de veículos antigos, o setor acompanha a incorporação de novas tecnologias de propulsão.

Embora os ônibus movidos a diesel Euro 6 continuem predominando, cidades brasileiras iniciaram processos de aquisição de modelos elétricos, movidos a gás natural e biometano.

Segundo dados apresentados pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), entre 2002 e abril de 2026 o BNDES contratou R$ 185,9 bilhões em projetos de mobilidade, dos quais R$ 3,8 bilhões foram destinados à eletrificação da frota e à infraestrutura de recarga.

Na Finep, entre 2002 e junho de 2026, foram realizadas 91 operações relacionadas à eletromobilidade, totalizando R$ 1,04 bilhão em contratos.

Mesmo com crescimento de 123% em relação ao ano anterior, o Brasil encerrou 2025 com 592 ônibus elétricos em operação, enquanto esses veículos representaram 5,5% da produção destinada ao segmento urbano nas fabricantes associadas à Fabus.

Segundo representantes da ABDE, a ampliação da eletromobilidade dependerá da combinação de linhas permanentes de financiamento, mecanismos de garantia, recursos de organismos multilaterais e apoio técnico aos municípios.

Foto: Lucas Mendes/Prefeitura de Nova Lima/Ilustração / Fernando Frazão/Agência Brasil/Ilustração

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