Mais de 30 mil ônibus urbanos precisariam ser substituídos para reduzir a idade média da frota, enquanto os recursos disponíveis cobrem menos de 7% da necessidade
A frota de ônibus urbanos do Brasil continua envelhecida apesar da abertura de novas linhas de financiamento para a renovação dos veículos. Atualmente, a idade média dos ônibus utilizados no transporte coletivo urbano está próxima de sete anos, enquanto o setor considera adequada uma média inferior a cinco anos.
Para alcançar esse patamar, seria necessário substituir mais de 30 mil ônibus urbanos, em um investimento estimado em aproximadamente R$ 30 bilhões. O volume de recursos disponibilizado pelo governo para estimular a renovação ainda está distante dessa necessidade.
O Move Brasil 2, programa criado para financiar a renovação de frotas, reservou R$ 2 bilhões para o segmento. Até o início de julho, R$ 1,5 bilhão já estava comprometido, o equivalente a 75% do total disponível.

Mesmo que todos os R$ 2 bilhões fossem direcionados exclusivamente para ônibus urbanos, o montante representaria menos de 7% do valor estimado para a substituição dos mais de 30 mil veículos necessários.
A linha de crédito, portanto, permite que parte das empresas retome investimentos que estavam adiados, mas não alcança a dimensão da necessidade acumulada de renovação da frota brasileira.
Frota urbana tem idade média próxima de sete anos
O envelhecimento da frota ocorre em um cenário de redução das vendas de ônibus urbanos. Em 2025, foram licenciadas 14.533 unidades desse tipo, correspondentes a 50,4% do total nacional.
No início de 2026, os emplacamentos de ônibus urbanos caíram 16%, mesmo com a produção de ônibus apresentando crescimento de 5,9%.
A combinação entre menor demanda, dificuldade de financiamento e necessidade de investimentos elevados contribui para manter veículos antigos em circulação por mais tempo.

O custo de aquisição também representa uma barreira. Um ônibus destinado ao transporte urbano custa entre R$ 800 mil e R$ 900 mil. Quando considerada a necessidade de substituir mais de 30 mil veículos, o investimento necessário chega a aproximadamente R$ 30 bilhões.
O cenário mostra a diferença entre o volume de crédito atualmente disponibilizado e o tamanho da frota que precisaria ser renovada.
Crédito não acompanha necessidade de renovação
A procura pelo Move Brasil 2 cresceu rapidamente. A linha oferece juros próximos de 13% ao ano, abaixo das taxas de 19% a 20% encontradas em linhas tradicionais de financiamento.
As condições fizeram empresas retomarem projetos de compra de ônibus que haviam sido adiados diante do custo dos financiamentos.
Mais de 600 veículos foram adquiridos com participação do programa por uma das principais fabricantes de ônibus do país. Cerca de metade dos pedidos está relacionada ao fretamento, 30% ao transporte rodoviário e 20% ao transporte urbano.
Os números, porém, não alteram a dimensão da necessidade de renovação da frota urbana.

O Move Brasil 2 deve financiar entre 1 mil e 1,3 mil ônibus urbanos. O número representa uma parcela pequena diante dos mais de 30 mil veículos que precisariam ser substituídos para reduzir a idade média da frota para menos de cinco anos.
O programa também não é destinado exclusivamente ao transporte coletivo urbano. A linha atende ainda aos segmentos de fretamento e transporte rodoviário.
Menos passageiros dificultam a renovação dos ônibus
A renovação da frota de ônibus também está relacionada ao comportamento da demanda pelo transporte coletivo.
Em 2019, os ônibus urbanos realizavam, em média, 40,4 milhões de viagens por dia. Em 2025, o número caiu para 29,9 milhões de viagens diárias.
A redução representa 10,5 milhões de viagens a menos por dia, uma queda de 26%.
Para 2026, a previsão é de recuperação de 9%, chegando a 32,6 milhões de viagens diárias. Mesmo nesse cenário, o número permaneceria 19% abaixo do registrado antes da pandemia.
A queda na demanda reduz a receita das empresas e interfere na capacidade de investimento na frota.

No transporte urbano, a operação é sustentada pela tarifa paga pelo passageiro, por subsídios públicos ou pela combinação das duas fontes. Quando a quantidade de passageiros diminui, a receita tarifária é afetada.
A situação se torna mais complexa quando existem reajustes tarifários atrasados, subsídios incertos ou contratos com menor previsibilidade de receita.
Essa condição também interfere na capacidade de obtenção de crédito. As instituições financeiras avaliam a capacidade das empresas de assumir novas dívidas, enquanto as operadoras dependem da previsibilidade das receitas para realizar investimentos de longo prazo.
Ônibus antigos aparecem entre motivos para deixar o transporte coletivo
O envelhecimento dos veículos também está relacionado à percepção dos passageiros sobre a qualidade do transporte coletivo.
Entre as pessoas que trocaram o ônibus por outro meio de transporte, 28,7% apontaram o desconforto como motivo. Na sequência aparecem a falta de flexibilidade de horários, com 20,7%, e o tempo de viagem, com 20,4%.
No recorte específico do transporte público urbano, o desconforto foi citado por 45,9% dos entrevistados. A insegurança apareceu em seguida, com 40%, enquanto os ônibus antigos foram mencionados por 31,8%.

Outro indicador relacionado às condições dos veículos é a climatização. Apenas 32,6% dos ônibus urbanos possuem ar-condicionado.
A manutenção de uma frota envelhecida ocorre, portanto, em um setor que também registra perda de participação entre os meios de transporte utilizados pela população urbana.
A participação dos ônibus caiu de 45,2% em 2017 para 30,9% em 2024.
Refrota financia ônibus, mas exige condições específicas
O Refrota é um dos principais instrumentos permanentes de financiamento para ônibus urbanos. O programa utiliza recursos do FGTS e envolve bancos públicos, privados e instituições relacionadas aos fabricantes.
A taxa de financiamento fica em torno de 10% ao ano, abaixo da taxa do Move Brasil 2.
O acesso ao Refrota, porém, depende de requisitos relacionados à concessão e aos veículos. Entre as exigências estão concessão regular, telemetria, bilhetagem eletrônica e ar-condicionado.

O Move Brasil 2 possui condições diferentes e alcança empresas que não se enquadram no Refrota. A linha também atende aos segmentos de fretamento e transporte rodoviário.
Desde 2023, o Refrota aprovou a compra de mais de 6 mil ônibus para empresas privadas, com recursos próximos de R$ 7 bilhões.
Renovar a frota ficou mais caro com novas tecnologias
A necessidade de substituir ônibus antigos ocorre ao mesmo tempo em que o setor passa por uma transição tecnológica.
Os ônibus a diesel com tecnologia Euro 6 ainda predominam, mas o transporte coletivo também começa a incorporar veículos elétricos, modelos movidos a gás, biometano e outras alternativas.
A mudança aumenta o custo da renovação
Um ônibus elétrico custa, em média, três vezes mais que um modelo convencional a diesel. Além do veículo, a eletrificação exige investimentos em pontos de recarga, reforço da rede elétrica, adaptação de garagens, sistemas de monitoramento, manutenção especializada e treinamento.
Os investimentos específicos em eletrificação ainda representam uma parcela pequena dos recursos destinados à mobilidade.
Entre 2002 e abril de 2026, o BNDES contratou R$ 185,9 bilhões em mobilidade, dos quais R$ 97 bilhões foram desembolsados. Desse total, R$ 3,8 bilhões foram destinados à eletrificação, baterias e infraestrutura de recarga.
Na Finep, foram registradas 91 operações de eletromobilidade entre 2002 e junho de 2026, com R$ 1,04 bilhão contratado e R$ 811,4 milhões liberados.
Ônibus elétricos avançam, mas ainda são minoria
A quantidade de ônibus elétricos em circulação aumentou no país. O Brasil encerrou 2025 com 592 veículos elétricos em operação, contra 265 em 2024, crescimento de 123%.
Apesar do aumento, os ônibus elétricos representaram apenas 5,5% da produção destinada ao segmento urbano pelas encarroçadoras associadas à Fabus.

A expansão dessa tecnologia exige linhas de financiamento de longo prazo, mecanismos de garantia, recursos multilaterais e apoio técnico aos municípios.
Ao mesmo tempo, a maior parte da frota urbana continua dependente dos modelos convencionais, enquanto a idade média permanece próxima de sete anos.
Crédito disponível ainda é insuficiente para renovar a frota
O Move Brasil 2 disponibilizou R$ 2 bilhões para financiamento e já havia comprometido R$ 1,5 bilhão até o início de julho. Os recursos podem financiar entre 1 mil e 1,3 mil ônibus urbanos.
A necessidade estimada, porém, é de mais de 30 mil veículos apenas para que a idade média da frota urbana passe de quase sete anos para menos de cinco anos.
A diferença entre os recursos disponíveis e o volume necessário mantém a renovação da frota de ônibus como uma demanda de grande escala no transporte coletivo urbano.
O programa tem recursos disponíveis até 28 de agosto e atende também aos segmentos de fretamento e transporte rodoviário.
Fotos: Wesly Nascimento/Reprodução/Ilustração / Ciete Silvério/Prefeitura de São Paulo/Ilustração / Renato Alves/GDF
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