Por Thiago Martins – [email protected]
Mobilidade em Pauta

Enquanto o mundo fortalece o transporte coletivo, o Brasil segue incentivando congestionamentos, motos e acidentes
O Brasil parece ter escolhido um caminho perigoso para o futuro da mobilidade urbana: abandonar o transporte coletivo e apostar, cada vez mais, no transporte individual – especialmente nas motocicletas. E talvez não exista retrato mais claro disso do que as recentes medidas anunciadas pelo Governo Federal.
De um lado, um pacote bilionário de R$ 30 bilhões para financiar veículos leves. Do outro, uma Medida Provisória que flexibiliza regras para mototáxi e motofrete justamente no momento em que o país enfrenta uma explosão de acidentes envolvendo motocicletas.
É impossível não enxergar a contradição.
Enquanto cidades do mundo inteiro investem em ônibus elétricos, corredores exclusivos, metrôs, VLTs e integração tarifária, o Brasil segue financiando congestionamentos, incentivando veículos individuais e afrouxando regras de segurança no trânsito.
O resultado já aparece diariamente nas ruas, nos hospitais e nas estatísticas.
O transporte coletivo está perdendo a disputa
Os próprios dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram o tamanho do problema.
Em 2017, o transporte coletivo representava 49,8% dos deslocamentos urbanos no Brasil. Em 2024, esse percentual caiu para apenas 31,7%.
Ao mesmo tempo, os deslocamentos individuais saltaram para 68,3%.
Na prática, isso significa mais carros nas ruas, mais motos, mais congestionamentos, mais poluição, mais acidentes e menos eficiência urbana.
E o mais grave: isso não está acontecendo por acaso. Está sendo incentivado.
O pacote federal de crédito para veículos leves basicamente injeta bilhões para ampliar a frota de carros e motos nas cidades brasileiras – justamente em um momento em que o país deveria fortalecer ônibus, corredores estruturantes e sistemas de média e alta capacidade.
A própria CNT fez um alerta contundente: o valor destinado aos veículos leves é equivalente aos investimentos voltados para renovação da frota de ônibus e transporte de cargas, setores que produzem benefícios coletivos muito maiores.
Um único ônibus substitui dezenas de carros nas ruas.
Um sistema eficiente de transporte coletivo reduz congestionamentos, melhora a fluidez urbana, diminui emissões de poluentes e democratiza o acesso à cidade.
Mas o Brasil parece preferir seguir na lógica oposta.
O incentivo às motos virou política pública
Se o estímulo ao transporte individual já é preocupante, a situação se torna ainda mais grave quando se observa a recente Medida Provisória nº 1.360.
Na prática, o Governo Federal decidiu flexibilizar exigências justamente para uma das atividades mais perigosas do trânsito urbano brasileiro: o transporte de passageiros por motocicletas.
A MP revoga exigências básicas de segurança que existiam há anos.
Acabou a idade mínima de 21 anos para atuar como mototaxista ou motofretista.
Acabou a exigência de experiência mínima de dois anos na habilitação.
Acabou a obrigatoriedade de cursos especializados.
Acabou até mesmo a inspeção periódica obrigatória dos veículos.
Pior: a nova regra passa a permitir até ciclomotores de 50 cilindradas transportando passageiros.
Na prática, um jovem recém-habilitado poderá começar imediatamente a transportar pessoas em motocicletas por aplicativo, sem experiência, sem formação específica e sem fiscalização adequada.
Tudo isso em um país que já vive uma epidemia de acidentes envolvendo motos.
As cidades estão adoecendo
O impacto dessa política não se limita ao trânsito.
Ele chega diretamente aos hospitais públicos.
As motocicletas já representam uma das maiores causas de internações traumáticas no Brasil. Prontos-socorros vivem lotados de vítimas de acidentes envolvendo motos – muitos deles trabalhadores de aplicativos pressionados por jornadas exaustivas, metas invisíveis e corridas mal remuneradas.
E ainda assim, o país escolhe flexibilizar regras.
O discurso normalmente vem embalado na ideia de “geração de renda” ou “modernização”. Mas há uma pergunta simples que ninguém parece disposto a responder:
Quem vai pagar essa conta?
Porque ela chega.
Chega no SUS.
Chega nas famílias.
Chega na Previdência.
Chega na mobilidade urbana.
Chega no trânsito caótico das cidades.
O silêncio das autoridades e do setor impressiona
Talvez uma das questões mais graves seja justamente o silêncio.
Pouco se discute sobre regulamentação séria do setor de motos por aplicativo.
Pouco se fala sobre fiscalização.
Pouco se debate sobre segurança viária.
E, em muitos municípios, inclusive, o serviço opera em confronto direto com legislações locais e leis orgânicas municipais.
Mesmo assim, praticamente não há reação institucional proporcional ao tamanho do problema.
Empresas de transporte coletivo, sindicatos patronais, federações empresariais, gestores públicos e até órgãos de fiscalização parecem assistir passivamente ao crescimento desordenado desse modelo.
E aqui é importante deixar algo claro mais uma vez: não é obrigação das empresas de ônibus resolverem o problema dos aplicativos.
Mas é impossível ignorar que elas são diretamente impactadas por isso.
Cada passageiro perdido para uma moto é menos receita para o transporte coletivo. Menos capacidade de investimento. Menos renovação de frota. Menos qualidade operacional.
Além disso, o ônibus continua sendo – de longe – o modal mais seguro e eficiente para deslocamentos urbanos em massa.
Enquanto empresas de transporte operam sob fiscalização rígida, capacitação permanente de motoristas, controle operacional e exigências técnicas severas, o transporte por motos cresce em muitos casos praticamente sem regulamentação efetiva.
O Brasil escolheu o caminho mais caro
Existe uma ironia cruel em tudo isso.
O transporte coletivo é frequentemente tratado como problema, quando na verdade ele é a solução.
Nenhuma cidade do mundo resolveu congestionamentos estimulando mais carros e motos.
Nenhuma.
As cidades que conseguiram melhorar mobilidade investiram pesado em transporte coletivo forte, eficiente, integrado e competitivo.
Mas o Brasil segue insistindo em medidas populares, imediatistas e eleitoralmente sedutoras.
Financia veículos individuais.
Flexibiliza regras.
Afrouxa fiscalização.
E depois tenta lidar com o colapso urbano resultante disso.
O país que deveria estar discutindo ônibus elétricos, corredores inteligentes, integração metropolitana e mobilidade sustentável continua debatendo como facilitar motos sem experiência circulando pelas cidades.
No fim, o recado parece claro: o Brasil não apenas negligencia sua mobilidade urbana.
Ele parece odiá-la.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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