Por Thiago Martins – [email protected]
Mobilidade em Pauta

Moradores de regiões da Zona Sul e Zona Norte enfrentam barreiras para utilizar benefício criado para incentivar comércio no Alecrim e Cidade Alta
O programa de “cashback” implantado pela Prefeitura do Natal para incentivar o uso do transporte público e fortalecer o comércio do Alecrim e da Cidade Alta começou a operar neste mês, mas já evidencia um problema estrutural histórico do sistema de ônibus da capital: pelo menos seis bairros e conjuntos da cidade seguem praticamente excluídos da possibilidade de utilizar o benefício por falta de linhas diretas ou pela própria lógica de integração adotada pela STTU.
Apesar da proposta da gestão municipal prever a devolução do valor da tarifa para usuários que realizarem viagens até os dois principais polos comerciais da capital, moradores de localidades como Parque das Colinas, Nova Descoberta, Neópolis, Serrambi, Cidade Satélite, todos na zona Sul da capital, e o conjunto Gramoré, na zona Norte da cidade, encontram dificuldades – ou sequer possuem alternativa viável – para acessar o benefício.
A situação expõe um paradoxo: enquanto a Prefeitura tenta estimular o deslocamento para o comércio central, parte significativa da população continua sem estrutura operacional mínima para chegar até essas regiões utilizando o sistema convencional de transporte.
Falta de linhas limita acesso ao benefício
Em alguns bairros, o problema está diretamente relacionado à ausência de linhas que façam ligação eficiente com Alecrim e Cidade Alta. Em outros, a dificuldade ocorre devido às regras operacionais de integração entre linhas.
Moradores do Parque das Colinas – bairro recentemente oficializado dentro da região de Candelária -, além de usuários do conjunto Cidade Satélite, dependem praticamente das linhas L-37, L-51 para acessar regiões centrais da cidade.
O problema é que, mesmo havendo linhas que seguem para o Alecrim, como L-52 e L-54, o sistema de integração impede que passageiros façam conexão entre linhas que saem do mesmo terminal operacional, localizado nas Rocas. Na prática, isso limita drasticamente as possibilidades de deslocamento.
Com isso, muitos usuários acabam restritos à integração com a linha N-43. Porém, até mesmo essa alternativa apresenta dificuldades operacionais: as linhas não compartilham necessariamente o mesmo ponto de parada, obrigando passageiros a caminharem entre diferentes locais – como entre a parada do IFRN e a área do Midway Mall – para concluir a integração.
A situação contraria justamente o propósito central do conceito de integração tarifária: facilitar o deslocamento do usuário sem exigir caminhadas adicionais, mudanças complexas ou perda de tempo.
Há ainda a situação para quem mora em Nova Descoberta, que só tem a possibilidade de utilizar a linha N-78 para o Centro da capital, sem qualquer conexão direta para o Alecrim, tendo que fazer a integração com linhas que se direcionem para o centro comercial. Neste caso, o contexto é menos complexo, mas ainda assim, gera dificuldades para os usuários.
Gramoré e Serrambi praticamente ficam fora do programa
O cenário é ainda mais grave em localidaonde sequer existem opções reais de deslocamento até o Alecrim ou Cidade Alta.
No Gramoré, por exemplo, a única linha disponível é a N-02, que conecta a região ao Midway Mall- ainda que as linhas N-15, N-43 e N-84 atendam parcialmente o bairro, mas não contemplam moradores de dentro do conjunto. Já no Serrambi, os passageiros dependem basicamente da linha S-50, que faz ligação com Santa Catarina.
Na prática, moradores dessas regiões não conseguem acessar diretamente as áreas contempladas pelo programa de cashback nem possuem estrutura de integração eficiente que permita utilizar o benefício.
A consequência é que justamente parte da população que poderia utilizar o transporte coletivo acaba excluída de uma política pública criada oficialmente para ampliar o acesso ao sistema e estimular o comércio popular.
Regras operacionais dificultam integração
Outro ponto que passa a ser questionado é a própria matriz operacional da integração adotada pelo transporte na capital potiguar.
Atualmente, o sistema impede integração entre linhas originadas no mesmo terminal operacional. Embora tecnicamente isso tenha sido criado para evitar sobreposição de viagens e fraudes tarifárias, o modelo acaba produzindo efeitos práticos negativos para o usuário comum.
Na realidade cotidiana, o passageiro pouco se importa com o terminal operacional de origem da linha. O que ele busca é uma conexão rápida, eficiente e prática.
Enquanto isso, aplicativos de transporte e motos por aplicativo oferecem viagens porta a porta, sem necessidade de caminhada, troca de parada ou longos deslocamentos a pé – realidade que aumenta ainda mais a perda de competitividade do transporte coletivo.
Proposta de fortalecimento do comércio esbarra na realidade do sistema
O programa de cashback foi criado pela Prefeitura do Natal para estimular o comércio tradicional do Alecrim e Cidade Alta, permitindo a devolução do valor da tarifa para usuários que realizarem dois embarques dentro das regras estabelecidas.
O benefício ocorre sempre no primeiro sábado após o quinto dia útil do mês e funciona exclusivamente através do cartão NuBus.
Pelas regras atuais, o primeiro embarque deve ocorrer fora da área contemplada pelo programa, enquanto o segundo precisa ser realizado dentro do perímetro do Alecrim ou Cidade Alta até as 15h.
O problema é que a própria configuração da rede de linhas impede que muitos usuários consigam cumprir essas exigências.
Isso levanta um questionamento inevitável: como fortalecer o comércio da região central se parte da população sequer consegue chegar até lá utilizando o sistema convencional de ônibus de forma plena?
Prefeitura deverá rever integração e ampliar cobertura
Diante dos problemas já identificados nos primeiros dias de operação do programa, a Prefeitura do Natal e a STTU precisarão revisar a lógica operacional do sistema.
Entre as medidas apontadas como necessárias, podemos sugerir:
- revisão das regras de integração entre linhas;
- criação de novas conexões para bairros e conjuntos;
- ampliação de linhas para Alecrim e Cidade Alta;
- unificação de pontos de integração;
- criação de linhas alimentadoras específicas para o programa;
- adequação operacional para reduzir deslocamentos a pé.
A própria STTU já informou anteriormente que o programa poderá passar por ajustes operacionais conforme a demanda observada nas primeiras semanas.
Na prática, porém, os primeiros dias da operação já mostram que o desafio vai muito além da devolução do valor da tarifa: o problema central continua sendo a própria estrutura do sistema de transporte público de Natal.
Foto: Arquivo/PORTAL UNIBUS
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