Investigação aponta conexões do PCC com empresas de ônibus em São Paulo

Investigação aponta conexões do PCC com empresas de ônibus em São Paulo

Apuração da Polícia Civil identifica suspeitas de repasses financeiros, negociações de veículos e influência de integrante da facção criminosa no setor de transporte coletivo.

A investigação que levou à prisão do ex-vereador Milton Leite (União Brasil) identificou possíveis conexões entre empresas de ônibus que operam no transporte público de São Paulo e Antônio José Muller Júnior, conhecido como Granada, apontado pelas autoridades como integrante da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Preso na Penitenciária Federal de Brasília, Granada é investigado por supostamente manter influência sobre negócios relacionados ao transporte coletivo, mesmo estando custodiado. Segundo informações reunidas pela Polícia Civil, sua esposa, Carla de Paula Muller, teria atuado como intermediária na comunicação com pessoas ligadas a empresas do setor.

Carla também foi presa na semana passada. A investigação aponta que ela teria participado de negociações envolvendo veículos, recebido transferências financeiras e mantido participação societária em uma empresa anteriormente acusada de ligação com o PCC.

As suspeitas integram a apuração sobre a atuação de integrantes do crime organizado no sistema de transporte público da capital paulista e em empresas que operam no setor.

Investigação aponta atuação de Granada no transporte desde 2002

Segundo os registros policiais, a ligação de Granada com o transporte coletivo remonta a 2002, dois anos após ele fugir de uma unidade prisional em Hortolândia, no interior de São Paulo.

Na ocasião, ele teria utilizado uma identidade falsa para assumir o cargo de diretor da Transmetro, uma cooperativa de transporte coletivo de Diadema, na região metropolitana de São Paulo.

Uma denúncia apresentada pelo Ministério Público estadual apontou que Granada teria exigido pagamentos de motoristas que trabalhavam na cooperativa. Os valores mencionados eram de R$ 2 mil por motorista, e aqueles que não efetuassem os pagamentos teriam sido ameaçados de morte.

Mesmo após voltar à prisão, em 2003, ele foi investigado por supostamente continuar exercendo influência sobre o grupo conhecido como máfia dos perueiros.

A apuração atual busca esclarecer se essa influência se estendeu a outras empresas de transporte e se Granada continuava recebendo informações sobre as atividades comerciais do setor.

Áudio e transferências financeiras colocam Carla Muller na investigação

Um dos elementos utilizados pelos investigadores é uma gravação de voz enviada por Carla de Paula Muller por aplicativo de mensagens, em janeiro de 2020.

O conteúdo do áudio indicaria que ela tratava de informações relacionadas a uma empresa de transporte do litoral paulista. A descrição foi associada pelos investigadores à Translider, companhia que operava em Cubatão.

A gravação teria sido encaminhada a um dos sócios da empresa, José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, que também é investigado no caso e está foragido.

De acordo com o relatório policial, Carla teria transmitido informações sobre os negócios do setor ao marido durante uma visita à unidade prisional. A investigação aponta, contudo, que o contato teria sido interrompido por funcionários do presídio.

No celular de Satilite, os investigadores encontraram conversas nas quais ele compartilhou com um advogado uma notícia sobre Granada, identificando-o como o suposto chefe.

A quebra do sigilo telefônico de Satilite é apontada como uma das principais fontes de informações utilizadas na investigação.

Comprovantes bancários e mensagens também indicariam que ele teria transferido pelo menos R$ 153 mil para Carla.

A Polícia Civil investiga a origem desses recursos e a possível relação dos pagamentos com negócios envolvendo empresas de transporte coletivo.

Translider e A2 Transportes são citadas em suspeitas de negócios

A investigação também identificou movimentações envolvendo a Translider, empresa de transporte que operava em Cubatão, e a A2 Transportes, companhia que atende bairros da zona sul de São Paulo.

Satilite teria adquirido a Translider em 2017, em uma negociação que envolveu Paulo Sirqueira Korek Farias, proprietário da A2 Transportes, e outro sócio.

A Polícia Civil suspeita que a transferência da empresa tenha sido apenas formal, sem representar uma mudança efetiva de controle.

Outro ponto analisado pelos investigadores é a capacidade financeira de Satilite para adquirir a companhia, cujo capital social declarado era de R$ 12 milhões, e uma refinaria localizada na Vila Prudente, na zona leste da capital paulista, por R$ 40 milhões.

Mensagens encontradas no celular do empresário indicariam que ele próprio mencionou a possibilidade de atuar como intermediário formal, utilizando seu nome em registros empresariais e operações envolvendo ônibus.

Os investigadores também identificaram referências a pagamentos mensais de R$ 10 mil que seriam realizados por um funcionário de Korek a Satilite.

Korek foi preso durante a operação. A defesa dele contesta a existência de provas que demonstrem seu envolvimento nas irregularidades investigadas e afirma que as conversas mencionadas no inquérito são diálogos de terceiros.

A empresa A2 Transportes opera linhas nos bairros de Jabaquara, Campo Grande, Cidade Ademar e Pedreira, na zona sul de São Paulo. A companhia era anteriormente conhecida como Cooperlíder.

Investigação envolve negociação de ônibus e defesa contesta acusações

Carla Muller também aparece nos documentos policiais como participante de negociações relacionadas à venda de ônibus vinculados à Translider.

Segundo os investigadores, embora os veículos integrassem o patrimônio da empresa do litoral paulista, os recursos provenientes da negociação teriam sido direcionados à conta da A2 Transportes.

A polícia busca esclarecer a finalidade das movimentações financeiras e a participação dos envolvidos nas operações.

Os advogados Ana Paula e Eliseu Minichillo, responsáveis pela defesa de Carla, contestam as acusações e afirmam que ela atua como empresária.

A defesa também questiona a hipótese de que Carla tenha intermediado comunicações entre o marido e pessoas externas ao sistema prisional. Segundo os advogados, as visitas em presídios federais ocorrem sob monitoramento e gravação.

Os defensores informaram que ainda aguardavam acesso integral aos autos para apresentar os argumentos relativos às acusações.

A defesa de Granada não apresentou manifestação específica sobre as suspeitas mencionadas na investigação.

A apuração sobre as empresas de transporte integra o conjunto de diligências relacionadas à operação que resultou na prisão de Milton Leite e de outros investigados. As suspeitas descritas no inquérito dependem de apuração judicial, e os envolvidos citados não tiveram responsabilidade criminal definitivamente estabelecida pelos fatos apresentados.

Foto: Ciete Silvério Prefeitura de São Paulo Ilustração

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