Trabalho por aplicativo cresce 36,8%, mas renda quase não avança no Brasil

Trabalho por aplicativo cresce 36,8%, mas renda quase não avança no Brasil

Pesquisa mostra que trabalhadores de aplicativos chegam a quase 2 milhões no Brasil, enquanto renda média se iguala à dos demais empregados e jornada semanal é maior

O número de brasileiros que trabalham por meio de aplicativos cresceu 36,8% entre 2022 e 2025 e chegou a aproximadamente 2 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o rendimento médio mensal desses trabalhadores praticamente deixou de apresentar vantagem em relação aos demais trabalhadores do setor privado. Os dados fazem parte do módulo sobre trabalho por meio de plataformas digitais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2025, os trabalhadores que utilizavam plataformas digitais como atividade principal ou única recebiam, em média, R$ 3.147 por mês. Entre os demais trabalhadores do setor privado, o rendimento médio era de R$ 3.148. Em 2022, entretanto, os trabalhadores de aplicativos tinham rendimento médio de R$ 3.115, enquanto os demais recebiam R$ 2.847. A diferença favorável aos plataformizados, que era de aproximadamente 9,4%, praticamente desapareceu em três anos.

A diferença fica mais evidente quando o rendimento é analisado em relação ao número de horas trabalhadas. Em 2025, quem tinha as plataformas como trabalho principal cumpria, em média, 44,7 horas por semana. Entre os demais trabalhadores do setor privado, a jornada média era de 39,3 horas. O resultado foi um rendimento de R$ 16,20 por hora para os plataformizados, contra R$ 18,40 para os demais trabalhadores.

Quase 2 milhões trabalham por meio de aplicativos

O levantamento do IBGE identificou aproximadamente 1,96 milhão de pessoas que exerciam atividades por meio de plataformas digitais em 2025. Desse total, cerca de 1,8 milhão tinham o trabalho por aplicativo como atividade única ou principal, enquanto aproximadamente 182 mil utilizavam as plataformas como atividade secundária.

Considerando os trabalhadores que tinham os aplicativos como principal fonte de renda, 92,1% estavam nessa condição. O contingente representou crescimento de 36,8% em comparação com 2022. Entre os trabalhadores plataformizados, 62,7% atuavam exclusivamente por meio das plataformas, enquanto 37,3% conciliavam a atividade com outras ocupações.

O transporte de passageiros concentra a maior parcela desse mercado. Cerca de 1,2 milhão de pessoas, equivalentes a 58,9% dos trabalhadores por aplicativo, atuavam nessa área. Outros 585 mil trabalhavam com aplicativos de entrega, enquanto aproximadamente 313 mil estavam em plataformas de prestação de serviços gerais ou profissionais. O setor de transporte, armazenagem e correios reunia 75% de todos os trabalhadores plataformizados.

Flexibilidade é principal motivo para trabalhar por aplicativo

A pesquisa do IBGE investigou pela primeira vez os motivos que levam as pessoas a trabalhar por meio de plataformas digitais. A flexibilidade foi apontada por 26,8% dos trabalhadores que tinham os aplicativos como principal fonte de renda.

Em seguida, apareceu a falta de outro trabalho, citada por 24,6%. A percepção de que o rendimento é maior do que em outras empresas também apareceu entre os motivos apresentados pelos trabalhadores. Segundo os dados, 20,8% afirmaram que a renda obtida pelas plataformas é maior do que aquela encontrada em outros trabalhos.

O perfil dos trabalhadores também apresenta concentração por gênero. Os homens representam 84,4% dos trabalhadores de aplicativos, enquanto as mulheres correspondem a 15,6%. Em relação à escolaridade, 62,5% possuem ensino médio completo ou superior incompleto.

Motoristas de aplicativo trabalham mais horas

Entre os motoristas de automóveis, o número de trabalhadores por aplicativo chegou a 905 mil em 2025. O contingente cresceu 9,8% em relação ao ano anterior e cerca de 26% desde 2022, quando havia 718 mil motoristas nessa modalidade.

O rendimento mensal médio dos motoristas de aplicativo era de R$ 2.873, enquanto os demais motoristas recebiam R$ 2.805. A diferença mensal, portanto, era de 2,4% a favor dos trabalhadores plataformizados.

A comparação muda quando são consideradas as horas trabalhadas. Os motoristas de aplicativo cumpriam jornada média de 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas entre os demais motoristas. A diferença era de 5,5 horas por semana.

Por hora trabalhada, os motoristas de aplicativo recebiam R$ 14,40, enquanto os demais recebiam R$ 16. O rendimento por hora dos motoristas plataformizados era, portanto, 10% menor.

Motociclistas chegam a 405 mil

O levantamento também identificou aproximadamente 405 mil motociclistas trabalhando por meio de aplicativos em 2025. O número representa crescimento de 15,4% em relação a 2024 e praticamente dobrou desde 2022, quando eram 211 mil pessoas nessa atividade.

Entre os motociclistas plataformizados, apenas 79 mil tinham cobertura previdenciária em 2025, o equivalente a 19,4%. O percentual corresponde a aproximadamente uma pessoa protegida pela Previdência a cada cinco trabalhadores.

Para comparação, a cobertura previdenciária alcançava 62,4% de todas as pessoas ocupadas no setor privado. Considerando todos os motociclistas do país, independentemente de trabalharem ou não por aplicativos, o índice era de 31%.

Os motociclistas de aplicativos recebiam, em média, R$ 2.221 por mês, considerando o rendimento efetivamente retirado após despesas como combustível. A jornada média era de 44,9 horas semanais, contra 41,1 horas dos motociclistas que não trabalhavam por aplicativos. Nesse caso, o rendimento por hora dos plataformizados era de R$ 11,40, 12,9% acima dos R$ 10,10 registrados entre os demais motociclistas.

Cobertura previdenciária é menor entre trabalhadores de aplicativos

A Previdência é outro ponto de diferença identificado pelo IBGE. Em 2025, 34% dos trabalhadores de aplicativos contribuíam para o sistema previdenciário, enquanto a cobertura entre os demais trabalhadores do setor privado era de 62,4%.

A informalidade também era maior entre os plataformizados. O índice alcançava 72,1%, contra 42,7% entre os demais trabalhadores do setor privado.

Entre os motoristas de automóveis que trabalhavam por aplicativos, a cobertura previdenciária era de 25,5%. Considerando todos os motoristas, plataformizados ou não, o percentual chegava a 43,8%.

O levantamento também apontou que a dependência em relação às plataformas pode variar de acordo com a quantidade de aplicativos utilizados. Entre os trabalhadores que atuavam exclusivamente por plataformas, 701 mil utilizavam apenas um aplicativo. O número de plataformas disponíveis pode influenciar a capacidade de o trabalhador continuar exercendo a atividade caso tenha problemas de acesso ou bloqueio em determinado serviço.

Trabalho por aplicativo e transporte coletivo

Os dados sobre jornada e rendimento dos motoristas de aplicativo também estão relacionados ao debate sobre profissionais que possuem emprego regular no transporte coletivo e utilizam plataformas digitais para complementar a renda.

O levantamento do IBGE identificou 182 mil pessoas que exerciam o trabalho por aplicativo como atividade secundária, mas não apresentou uma divisão que permita determinar quantas delas são motoristas de ônibus. Portanto, os números da pesquisa não permitem estabelecer quantos profissionais do transporte coletivo acumulam as duas atividades.

Ao mesmo tempo, empresas de transporte coletivo relatam dificuldades para contratar e manter motoristas. Dados citados no levantamento apontam que 53,4% das empresas de transporte urbano de passageiros enfrentam dificuldades para contratar motoristas. Entre profissionais de manutenção, o percentual chega a 63,2%.

Esse cenário coloca em discussão a relação entre remuneração, condições de trabalho, jornada e busca por renda complementar. A atividade em aplicativos pode representar uma alternativa para trabalhadores que procuram aumentar seus rendimentos, mas, quando combinada com outra ocupação, acrescenta horas de trabalho ao período semanal.

Jornada e descanso entram no debate sobre segurança

A legislação trabalhista estabelece período mínimo de 11 horas consecutivas de descanso entre jornadas. As regras aplicáveis aos motoristas profissionais também estabelecem normas relacionadas à jornada, ao tempo de direção e ao repouso.

O problema apontado no debate sobre motoristas que acumulam atividades é que o controle da jornada pode ocorrer de forma separada. A empresa de transporte coletivo acompanha o período em que o funcionário está trabalhando para a companhia, enquanto a plataforma registra o tempo de conexão do motorista ao aplicativo.

Dessa forma, os sistemas não necessariamente apresentam a quantidade total de horas que determinado profissional permaneceu dirigindo ao longo do dia.

O Ministério do Trabalho e Emprego relaciona a limitação do tempo de conexão dos motoristas de aplicativos à segurança. A proposta de limitar a 12 horas diárias de conexão em uma mesma plataforma tem, entre seus objetivos, evitar acidentes associados ao cansaço e à redução dos reflexos e da capacidade de tomada de decisões. O projeto de regulamentação segue em tramitação no Congresso Nacional.

Os dados apresentados não permitem afirmar que todo motorista que acumula diferentes atividades esteja dirigindo em condição de fadiga ou que eventual acidente tenha sido provocado pela segunda jornada. Uma relação desse tipo dependeria de análise específica de cada ocorrência.

Renda, jornada e falta de profissionais no transporte

Os números divulgados pelo IBGE colocam no mesmo debate dois movimentos registrados no mercado de trabalho: o crescimento do trabalho por aplicativo e a dificuldade enfrentada por empresas de transporte coletivo para encontrar profissionais.

Entre 2022 e 2025, a quantidade de trabalhadores plataformizados cresceu 36,8%, chegando a aproximadamente 2 milhões. No mesmo período, entretanto, o rendimento médio mensal dos trabalhadores de aplicativos passou de R$ 3.115 para R$ 3.147, enquanto a renda dos demais trabalhadores do setor privado aumentou de R$ 2.847 para R$ 3.148.

A comparação por hora mostra uma diferença ainda maior. Os trabalhadores de aplicativos cumpriam uma jornada média de 44,7 horas semanais e recebiam R$ 16,20 por hora. Entre os demais trabalhadores do setor privado, eram 39,3 horas e R$ 18,40 por hora.

Entre os motoristas de automóveis, o cenário se repete: rendimento mensal de R$ 2.873 para os plataformizados contra R$ 2.805 para os demais, mas com jornada de 45,9 horas semanais contra 40,4 horas e remuneração por hora de R$ 14,40 contra R$ 16.

O levantamento também mostra que a mão de obra representa 43,1% do custo do transporte público coletivo urbano, segundo dados apresentados no material. Isso relaciona a discussão sobre remuneração dos motoristas ao financiamento do sistema, incluindo tarifas e subsídios.

Os dados do IBGE, portanto, mostram o crescimento do trabalho por aplicativo, a redução da diferença de rendimento mensal em relação aos demais trabalhadores, jornadas semanais maiores e menor cobertura previdenciária. A pesquisa também evidencia a expansão dos aplicativos entre motoristas e motociclistas, enquanto permanece sem dimensionamento nacional oficial a quantidade de profissionais que acumulam o trabalho por aplicativo com outras atividades, incluindo o transporte coletivo.

Fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil / Fernando Frazão / Toninho Tavares

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