Brasil implantou menos de 12 km de BRT por ano desde 1974

Brasil implantou menos de 12 km de BRT por ano desde 1974

BRT no Brasil soma 556 km de vias dedicadas e está presente em 17 sistemas distribuídos por 15 cidades, segundo levantamento da NTU

O BRT no Brasil alcançou 556,25 quilômetros de vias dedicadas ao transporte coletivo por ônibus após cinco décadas desde a implantação do primeiro sistema em Curitiba, em 1974. Apesar do pioneirismo brasileiro na adoção do modelo, a expansão ocorreu em ritmo inferior a 12 quilômetros de corredores por ano, em média.

Os dados fazem parte do estudo “BRT Brasil: sistemas em operação nas cidades brasileiras”, contratado e organizado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) e elaborado pela Oficina Consultores. O levantamento analisou aspectos institucionais, regulatórios, físicos, operacionais e econômicos dos sistemas de BRT em funcionamento no país e foi desenvolvido como contribuição ao Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), conduzido pelo BNDES.

Atualmente, o levantamento identifica 17 sistemas BRT em 15 cidades brasileiras, com operação distribuída por 35 corredores. A pesquisa considera como BRT os sistemas que atendem a um conjunto de características relacionadas à prioridade dos ônibus, infraestrutura, embarque, cobrança e organização da operação.

Entre os critérios considerados estão a circulação em pista ou faixa exclusiva, a preferência pelo posicionamento do corredor no centro da via, o pagamento antecipado da tarifa, o tratamento das interseções para reduzir interferências do tráfego e a existência de plataforma que permita o embarque em nível.

O estudo também considera características como estações fechadas, possibilidade de ultrapassagem, serviços paradores e expressos, informação em tempo real, prioridade semafórica e monitoramento permanente da frota.

Expansão ocorreu em períodos específicos

A implantação dos sistemas brasileiros não ocorreu de maneira contínua ao longo das décadas. Segundo o levantamento, houve maior concentração de investimentos entre 2012 e 2016, período relacionado à preparação das cidades para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Os primeiros corredores brasileiros foram implantados em um período em que o conceito moderno de BRT ainda não estava consolidado. Curitiba, Goiânia e São Paulo começaram com corredores segregados para ônibus, que posteriormente receberam elementos adicionais de infraestrutura e operação.

Em Curitiba, por exemplo, as estações-tubo implantadas em 1991 permitiram a cobrança antecipada, o embarque mais rápido e a integração entre linhas. A cidade possui atualmente seis corredores classificados como BRT pela metodologia do estudo, com 90,25 quilômetros de infraestrutura dedicada, 15 terminais e 171 estações.

O levantamento aponta que a estrutura brasileira inclui 99 terminais e 682 estações, além das vias dedicadas. Em 14 dos 17 sistemas analisados, predominam estações fechadas, enquanto a cobrança antecipada da tarifa ocorre em 14 sistemas.

Manutenção da infraestrutura é outro ponto analisado

A pesquisa também identifica responsabilidades diferentes pela manutenção dos sistemas. Em 64,7% dos casos, a conservação da infraestrutura permanece sob responsabilidade dos municípios.

A estrutura envolve pavimentação, estações, terminais, portas, catracas, iluminação, acessibilidade, informação aos passageiros e demais equipamentos utilizados diariamente na operação.

O levantamento aponta ainda uma baixa integração entre os corredores de BRT e a infraestrutura cicloviária. Em 74,2% dos 35 corredores analisados não existe infraestrutura para bicicletas associada. Em 22,9%, ciclovias ou ciclofaixas aparecem somente em parte do percurso. Apenas um corredor possui infraestrutura cicloviária em toda a extensão.

A possibilidade de ultrapassagem também varia entre os sistemas. Em 16 dos 35 corredores, não existe estrutura para ultrapassagem. Em 17, a manobra pode ser realizada apenas nas estações, enquanto somente dois corredores permitem ultrapassagens ao longo de toda a extensão.

Maioria dos sistemas tem operação privada

Dos 17 sistemas analisados, 16 são operados por empresas privadas. O Rio de Janeiro é a única cidade em que o BRT é operado diretamente por uma empresa pública municipal.

A forma de contratação também varia. Apenas três dos 17 sistemas, ou 17,6%, foram implantados por meio de licitação específica para o BRT. Em seis casos, a operação foi incorporada aos contratos existentes por meio de aditivos. Outros cinco foram enquadrados em concessões já vigentes. Em dois sistemas, a pesquisa não obteve a informação.

A distribuição das responsabilidades pela infraestrutura também apresenta diferenças. Em 12 dos 17 sistemas, o município participou da construção. Em cinco houve participação estadual, sendo possível a presença de mais de um ente público em um mesmo empreendimento.

Sorocaba aparece como o único sistema em operação analisado em que a construção da infraestrutura ficou diretamente a cargo da concessionária responsável pelo BRT.

Na aquisição dos ônibus, a situação é diferente. Em 14 dos 17 sistemas, os veículos são fornecidos pelos operadores. As exceções identificadas pelo estudo estão no Rio de Janeiro, na Linha Verde de São José dos Campos e no BRT Metropolitano de Belém.

Diesel ainda predomina nos sistemas

A transição energética já aparece nos projetos de BRT, mas os ônibus a diesel continuam predominantes. O combustível está presente em 16 dos 17 sistemas pesquisados, equivalente a 94,1%.

Ônibus elétricos a bateria aparecem em seis sistemas. O levantamento registra ainda sistemas com veículos híbridos e trólebus, além da operação com biometano em Goiânia.

A eletrificação também aparece em projetos de expansão ou construção de BRT, incluindo iniciativas no ABC Paulista, Grande Belém, Salvador e Cuiabá-Várzea Grande.

Em Curitiba, a nova concessão do transporte coletivo prevê a incorporação de ônibus elétricos. O planejamento considera 250 veículos elétricos entre 2027 e 2031, além de investimentos em eletropostos.

Rio de Janeiro é exceção entre os sistemas pesquisados

O Rio de Janeiro possui 143 quilômetros de vias classificadas como BRT, 15 terminais e 137 estações, segundo o levantamento. A cidade concentra o maior volume de vias dedicadas entre os sistemas analisados.

A operação passou por intervenção municipal em 2021. Em 2022, o Município decretou a caducidade do contrato de concessão relacionado ao BRT e a operação passou para a Mobi-Rio.

Com isso, o Rio de Janeiro tornou-se o único sistema do levantamento com operação diretamente realizada por uma empresa pública municipal.

O sistema carioca reúne os corredores TransOeste, TransCarioca, TransOlímpico e TransBrasil. Após a intervenção, houve aquisição de novos ônibus, reforma de estações, recuperação de infraestrutura e conclusão do TransBrasil.

BRT precisa estar integrado a outros modos

O estudo também trata o BRT como parte de uma rede de transporte coletivo, e não como um sistema isolado. A integração com linhas alimentadoras, terminais, metrô, trens, bicicletas e deslocamentos a pé é apontada como parte da estrutura necessária para o funcionamento da rede.

A pesquisa diferencia ainda os corredores BRT completos de estruturas que possuem apenas algum nível de prioridade para os ônibus. A definição é relevante porque corredores simples ou faixas exclusivas não necessariamente apresentam todos os elementos associados ao conceito de BRT.

No Brasil, Curitiba é apontada como referência histórica. O sistema começou a operar em 22 de setembro de 1974, com ônibus expressos circulando em canaletas exclusivas no eixo Norte-Sul. Posteriormente, foram incorporados elementos como estações, cobrança antecipada, embarque em nível e ônibus articulados e biarticulados.

O levantamento mostra que, cinco décadas depois, o país possui 17 sistemas classificados como BRT em operação e 556,25 quilômetros de infraestrutura dedicada. A rede operacional associada às linhas, considerando também trechos em outras condições de circulação, chega a 740,05 quilômetros.

Fotos: Joá Souza/WRI Brasil / Sidnei Campos Fotografia/WRI Brasil / Vander Bras

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