Estudo aponta aumento dos custos operacionais do transporte coletivo, enquanto empresas defendem compensações para evitar impactos sobre a tarifa dos usuários
A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 no Congresso Nacional tem gerado preocupação no setor de transporte coletivo urbano. Em Maceió, o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros de Maceió (Sinturb) alerta que a mudança poderá resultar em aumento de até 8% na tarifa de ônibus caso não sejam criadas medidas de compensação para absorver o crescimento dos custos operacionais.
O debate ocorre em meio à análise de propostas que preveem a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas. Segundo o setor, a alteração teria impacto direto sobre as despesas com mão de obra, um dos principais componentes da estrutura de custos das empresas de transporte coletivo.
Estudo aponta aumento dos custos no transporte coletivo
Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que a redução da jornada semanal pode elevar em 8,77% o custo da hora trabalhada no setor de transporte. O percentual é superior à média nacional projetada para os diversos segmentos da economia, calculada em 7,84%.
Além disso, estudos apresentados por entidades do setor indicam que os gastos especificamente relacionados à contratação de motoristas podem aumentar em aproximadamente 15% com a implementação da jornada de 40 horas semanais.
Para o transporte coletivo urbano, o impacto é considerado relevante devido à forte dependência de profissionais para manter a operação diária dos serviços.
Custos com pessoal representam metade das despesas
De acordo com dados do Anuário NTU 2024-2025, da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), os custos com pessoal e encargos trabalhistas representam cerca de 50% das despesas operacionais do transporte coletivo por ônibus.

Por se tratar de uma atividade essencial prevista na Constituição Federal, o serviço opera de forma contínua e exige equipes distribuídas ao longo de todo o dia. A necessidade de manter motoristas, mecânicos, profissionais de manutenção e equipes de apoio em funcionamento permanente faz com que alterações na jornada tenham reflexos diretos na operação.
Segundo o Sinturb, a estrutura necessária para garantir a circulação dos ônibus envolve não apenas os veículos em operação, mas também garagens, oficinas e centros de manutenção que funcionam diariamente.
Setor aponta possível impacto sobre a tarifa de ônibus
A tarifa do transporte coletivo é calculada com base na divisão do custo total do sistema pelo número de passageiros pagantes. Dessa forma, qualquer aumento das despesas operacionais pode refletir no valor final da passagem.
O setor destaca que os sistemas urbanos ainda enfrentam os efeitos da redução da demanda observada durante a pandemia. Embora tenha ocorrido recuperação gradual do número de usuários, muitas cidades permanecem abaixo dos níveis históricos de passageiros registrados antes da crise sanitária.
Nesse cenário, o aumento dos custos trabalhistas poderia ampliar a pressão financeira sobre os operadores do serviço.
Falta de profissionais preocupa empresas de transporte
Outro fator citado pelas empresas é a dificuldade de contratação de trabalhadores especializados.
Pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em 2023 revelou que 53,4% das empresas do setor enfrentam dificuldades para contratar motoristas. O levantamento também mostrou que 63,2% das operadoras relatam escassez de mecânicos e profissionais de manutenção.

Para as entidades representativas, a redução da jornada semanal em um contexto de déficit de mão de obra pode exigir novas contratações para manter a mesma oferta de serviço, ampliando ainda mais os custos operacionais.
Debate inclui novas fontes de financiamento para o sistema
Especialistas e representantes do setor defendem que eventuais mudanças na legislação trabalhista sejam acompanhadas por mecanismos que garantam a sustentabilidade econômica do transporte coletivo.
Entre as alternativas discutidas estão a revisão dos modelos de remuneração das empresas operadoras, a criação de novas fontes de financiamento para o sistema e a atualização dos contratos de concessão.
O objetivo, segundo o segmento, é buscar equilíbrio entre os benefícios sociais decorrentes da redução da jornada de trabalho e a manutenção da capacidade operacional dos serviços essenciais.
O Sinturb afirma que a discussão precisa considerar as características específicas do transporte coletivo urbano, uma atividade intensiva em mão de obra e que funciona de forma ininterrupta. A entidade avalia que, sem medidas compensatórias, mudanças na jornada poderão resultar em aumento da tarifa, pressão sobre os recursos públicos destinados ao setor ou impactos na prestação dos serviços.
Foto: Ascom DMTT / Jonathan Lins/Secom
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