Consultor em Segurança Pública defende critérios mais rigorosos nas licitações, fiscalização permanente e análise aprofundada das empresas para reduzir riscos de infiltração criminosa no setor
O atual modelo de licitações do transporte coletivo pode facilitar a entrada de organizações criminosas em contratos públicos caso os editais adotem apenas critérios como regularidade documental, capacidade técnica e menor preço. O alerta foi feito pelo consultor em Segurança Pública Wagner Mesquita, ex-integrante da Polícia Federal e ex-secretário da área de segurança pública no Paraná, em entrevista concedida ao DIÁRIO DO TRANSPORTE.
Confira a matéria na íntegra: https://diariodotransporte.com.br/2026/07/20/modelos-atuais-de-licitacao-podem-abrir-espaco-para-infiltracao-do-crime-organizado-no-transporte-coletivo-curitiba-preocupa-alerta-especialista/
Segundo o especialista, o interesse das organizações criminosas deixou de se concentrar apenas em atividades voltadas à lavagem de dinheiro e passou a alcançar empresas que atuam em setores estratégicos, possuem contratos com o poder público, movimentam recursos financeiros e concentram informações de interesse econômico e operacional.
Entre os segmentos citados estão empresas de transporte coletivo, postos de combustíveis, sistemas de monitoramento por câmeras, controle de trânsito, instituições financeiras e empresas ligadas à tecnologia.
Transporte coletivo está entre os setores de interesse
Durante entrevista, Mesquita afirmou que facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho passaram a demonstrar interesse por atividades econômicas formalmente regulares, utilizando empresas para ampliar sua influência territorial, econômica e política.

Segundo ele, além da possibilidade de lavagem de dinheiro, contratos públicos de longo prazo representam uma oportunidade para obtenção de receitas regulares e acesso a estruturas estratégicas.
O especialista ressaltou, porém, que as investigações existentes não permitem generalizações sobre o setor de transporte coletivo, formado, em sua maioria, por operadores e empresários que atuam regularmente na prestação do serviço.
Investigações reforçam preocupação
Mesquita citou operações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo que investigam possíveis vínculos entre empresas de ônibus e organizações criminosas. Entre os casos está a investigação envolvendo a empresa Transunião, que passou por intervenção da SPTrans após operação realizada em junho deste ano.
As investigações seguem em andamento e dependem da apuração das autoridades competentes, não representando condenação definitiva das pessoas ou empresas envolvidas.
Para o especialista, esses casos demonstram que o tema deixou de ser apenas uma hipótese e passou a exigir atenção dos gestores responsáveis pelos processos licitatórios.
Menor preço pode favorecer concorrência desigual
Um dos principais pontos destacados por Wagner Mesquita é o uso do menor preço como fator predominante para escolha das empresas vencedoras.
Segundo ele, empresas que atuam regularmente precisam calcular seus custos operacionais, manutenção da frota, folha de pagamento, investimentos e margem financeira para manter a atividade.

Já organizações financiadas por recursos provenientes de atividades criminosas poderiam apresentar propostas com valores inferiores, sem depender exclusivamente da remuneração do contrato público para manter suas operações.
Na avaliação do especialista, esse cenário pode criar uma concorrência desigual, reduzindo as chances de empresas que atuam de forma regular.
Due diligence é apontada como alternativa
Como forma de reduzir os riscos, Mesquita defende que os editais de licitação passem a incorporar mecanismos de due diligence, procedimento que consiste na análise aprofundada da empresa participante antes da assinatura do contrato.
Entre os pontos que poderiam ser avaliados estão:
- origem dos recursos utilizados na operação;
- histórico dos sócios e administradores;
- mudanças societárias recentes;
- beneficiários efetivos da empresa;
- vínculos com processos administrativos, cíveis e criminais;
- movimentações financeiras relacionadas ao contrato;
- destino dos recursos obtidos durante a execução dos serviços.
Segundo o especialista, apenas a apresentação de certidões negativas e da documentação exigida atualmente já não seria suficiente para avaliar os riscos existentes.
Fiscalização deve continuar durante o contrato
Além da análise prévia das empresas, Wagner Mesquita também defende a ampliação dos mecanismos de fiscalização ao longo de toda a vigência dos contratos.
Para ele, órgãos como Ministério Público, Tribunais de Contas, Poder Legislativo e gestores do transporte devem acompanhar continuamente as operações das empresas contratadas, especialmente em contratos de longa duração.
O especialista afirma que mudanças societárias e alterações na estrutura financeira podem ocorrer após a assinatura do contrato, tornando necessária uma fiscalização permanente.
Dados dos passageiros também preocupam
Outro ponto destacado durante a entrevista diz respeito aos sistemas tecnológicos utilizados pelo transporte coletivo.
Segundo Mesquita, sistemas de bilhetagem eletrônica armazenam informações sobre deslocamentos, recargas, gratuidades e perfis de utilização dos usuários. Com a expansão de tecnologias como reconhecimento facial e biometria, a quantidade de dados tende a aumentar.

Na avaliação do consultor, essas informações possuem valor econômico e, caso grupos criminosos consigam acesso indevido, poderiam ser utilizadas em fraudes, abertura irregular de contas e outras práticas ilícitas.
Ele ressaltou que a preocupação não representa crítica às empresas responsáveis pelos sistemas de bilhetagem ou tecnologia, mas sim um alerta sobre a necessidade de impedir a aproximação de organizações criminosas dessas estruturas.
Licitação de Curitiba é citada como exemplo
Durante a entrevista, Wagner Mesquita também comentou a licitação do transporte coletivo de Curitiba, atualmente suspensa por decisão judicial.
Para o especialista, o processo representa uma oportunidade para que o município incorpore critérios adicionais de integridade antes da contratação das futuras operadoras.
Ele afirmou que contratos com duração de aproximadamente 15 anos exigem mecanismos mais rigorosos de fiscalização e acompanhamento, justamente por envolverem recursos públicos durante um longo período.
Mesquita destacou que o objetivo não é dificultar a realização das licitações, mas criar instrumentos capazes de proteger os operadores regulares, os usuários do transporte coletivo e a própria administração pública.
Ao defender mudanças nos procedimentos atuais, o consultor resumiu seu posicionamento afirmando que os processos licitatórios precisam evoluir diante do cenário atual, incorporando mecanismos de prevenção, monitoramento e fiscalização contínua para reduzir riscos de infiltração do crime organizado em serviços públicos.
Foto: Arquivo/PORTAL UNIBUS
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