Passe livre em Natal: medida é positiva, mas operação precisa melhorar

Passe livre em Natal: medida é positiva, mas operação precisa melhorar

Por Thiago Martins – [email protected]
Mobilidade em Pauta

A implantação do passe livre aos domingos no transporte público de Natal representa um avanço importante na política de mobilidade urbana da capital. A iniciativa da prefeitura amplia o acesso ao sistema, estimula o uso do transporte coletivo e tem potencial para impactar positivamente o comércio, o lazer e a circulação de pessoas na cidade.

No entanto, como toda política pública em fase inicial, o modelo ainda apresenta desafios operacionais que precisam ser enfrentados com rapidez – especialmente em um momento em que a gestão tem a oportunidade de testar soluções em um cenário controlado.

Passe livre é acerto, mas não pode parar na tarifa

A gratuidade aos domingos, vinculada ao uso do cartão NuBus, vem acompanhada de ajustes operacionais, como aumento de viagens e criação de novas linhas. É um passo relevante.

Mas transporte público não se resolve apenas com tarifa. A experiência do usuário – que envolve conforto, comodidade, integração, clareza e eficiência – precisa evoluir junto.

E é justamente nesses pontos que começam os principais gargalos.

Padronização visual: um problema simples que precisa ser resolvido

Um dos aspectos mais visíveis – e incômodos – do sistema é a falta de padronização dos veículos, especialmente no transporte opcional.

A “salada visual” dos alternativos, com adesivagens diferentes e muitas vezes desconectadas da operação real das linhas, transmite desorganização ao usuário.

Padronizar a identidade visual dos veículos deveria ser uma medida imediata, independente de licitação. E mais: essa padronização precisa alcançar também o sistema convencional no futuro.

Transporte público também é comunicação – e hoje Natal comunica desordem.

Códigos de linha e lógica operacional precisam conversar com a realidade

Outro ponto que merece atenção é a coerência operacional das linhas.

A linha L-37, por exemplo, opera aos domingos com características de linha circular, mas mantém um código que não corresponde à sua função. Isso gera confusão.

Uma simples adequação – como transformá-la em S37 ou 537 – já melhoraria a leitura do sistema para o usuário.

Pode parecer detalhe. Mas não é. É exatamente esse tipo de detalhe que diferencia um sistema intuitivo de um sistema confuso.

Integração ainda falha em pontos estratégicos

Se há um ponto crítico no sistema atual, ele está na integração física.

O trecho Mirassol/Via Direta é um exemplo claro disso. Hoje, usuários precisam se deslocar entre paradas diferentes para fazer integração – algo que simplesmente não faz mais sentido.

O passageiro atual não aceita mais andar para trocar de ônibus. E há um motivo simples: o concorrente direto – o transporte por aplicativo – oferece exatamente o oposto, com embarque na porta de casa.

Em dias de chuva, essa deficiência se torna ainda mais evidente. Calçadas ruins, infraestrutura precária e até problemas sanitários tornam o deslocamento ainda mais desconfortável.

Se há uma decisão clara a ser tomada, ela é esta: unificar a operação no Via Direta, acabando com a parada da antiga Estação de Transferência de Mirassol. Centralizar, simplificar e tornar a integração mais eficiente.

Revisão na operação

A reconfiguração das linhas na zona Norte também levanta questionamentos importantes.

A retirada de determinadas linhas e mudanças de itinerário parecem ter gerado lacunas, especialmente em regiões como no conjunto Santa Catarina – no caso da linha S50 que não opera mais na região aos domingos. Isso se agrava porque a linha 600, que substitui a S50, já possui demanda consolidada e tem mais dificuldade em absorver sozinhas as demanda da linha S50 e atender a região.

Há também ajustes que podem ser feitos em outros casos, como na linha 584, que poderia ter sua operação ajustada para a Avenida das Alagoas – semelhante ao itinerário da linha L51.

Isso sem falar em trechos que perderam linhas, como a região da Av. dos Potiguares atendido pela linha O-40 – que agora não circula mais aos domingos. Rever o retorno de operações como a O-40, também pode ser um caminho necessário.

Além disso, há ainda o caso das regiões que seguem sem atendimento – e que poderiam ter uma oportunidade de avanços e melhorias no transporte, como os bairros de Nova Cidade e Bairro Nordeste, ambos na zona Oeste da capital.

Aliás, um comentário adicional: no caso do Bairro Nordeste é ainda mais interessante perceber essa situação, dado que uma vereadora de Natal recentemente cobrou ar-condicionado nos ônibus da capital – algo que, segundo a prefeitura, terá, a partir da licitação. Pois bem! A edil seria a ‘representante do Bairro Nordeste’. Porém, não há qualquer registro de dedicação para o transporte que atenda ao bairro nos domingos. Antes disso, também não há qualquer registro de melhorias na única linha que atende o bairro (a N-25, que sai da Redinha e conta com apenas dois veículos em sua frota), mesmo com eventuais defesa da parlamentar.

Redistribuição de demanda precisa ser planejada

Hoje, parte significativa da demanda da zona Norte está sendo concentrada em poucas linhas, como a N-73, que já possui fluxo próprio para regiões como Ponta Negra.

Isso indica a necessidade – ou possibilidade – de criação de linhas intermediárias que redistribuam melhor os passageiros.

Uma possibilidade seria uma ligação direta entre Santa Catarina e Cidade Jardim, que poderia, inclusive, aproveitar traçados já existentes para otimizar a operação e reduzir sobrecarga em outras linhas.

Mais conexão com as praias: oportunidade evidente

Outro ponto pouco explorado é o potencial de linhas voltadas para as praias.

Domingo é, por definição, um dia de lazer. E o sistema precisa refletir isso.

Linhas especiais, mesmo que operando em formato complementar, poderiam ampliar o acesso da população às áreas litorâneas – desde que integradas de forma inteligente ao restante da rede, sem exigir troca de paradas.

Ajustes são necessários – e o momento é agora

O passe livre aos domingos é, sem dúvida, uma política acertada. Mas seu sucesso depende da capacidade de ajuste fino da operação.

Esse é o momento ideal para testar, corrigir e aprimorar.

Porque, no fim das contas, não basta ser gratuito. O transporte público precisa ser:

  • eficiente;
  • intuitivo;
  • confortável;
  • competitivo.

E isso só se constrói com atenção aos detalhes – justamente aqueles que, hoje, ainda fazem falta no sistema de Natal.

Foto: Arquivo/PORTAL UNIBUS

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