AM: Apesar do desconforto e do preço, ônibus piratas ainda são preferidos por parte dos usuários de Manaus

A bordo de um ônibus precário e ilegal, dezenas de trabalhadores fazem diariamente uma viagem de ida e volta entre casa e trabalho, apesar de saberem dos riscos da falta de segurança nos ônibus clandestinos, cuja tarifa chega a R$ 3.
O transporte coletivo irregular circula normalmente, atravessa as zonas Centro-Oeste e Leste da cidade e ganha a confiança de passageiros castigados pela superlotação em horários de pico, atraídos pela pontualidade em endereços no Dom Pedro, Amazonas Shopping Center, Efigênio Sales e Coroado, terminando o itinerário na comunidade João Paulo 2, bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste.
A equipe do Portal Em Tempo acompanhou a rotina de quem se aventura a entrar em “ônibus piratas”. A partida começou no bairro Dom Pedro, Zona Centro-Oeste. Em um ponto de ônibus, trabalhadores rejeitavam o embarque nos coletivos comuns, mesmo que fossem chamados por colegas transportados nestes.
Entre uma olhada no celular e outra no relógio do pulso, indicavam que esperavam por algo, e pontualmente às 17h20 o “pirata” de placa vermelha LCJ-1728 chega – um veículo velho, sujo, com algumas janelas sem vidro e ausência de equipamentos de segurança comuns nos ônibus da frota comum.
Os passageiros entram no veículo pela porta dos fundos. Alguns até se conhecem e se cumprimentam no interior do veículo.
O motorista permanece discreto ao volante, na companhia da “cobradora”, que se senta na primeira cadeira próxima à porta de saída, trazendo no colo uma caixa plástica com tampa, usada como caixa registradora. Mesmo sendo o coletivo “pirata”, há o respeito com os passageiros idosos, os quais entram pela porta dianteira do veículo.
O pagamento feito para a cobradora é acertado no momento em que cada passageiro se aproxima do motorista para indicar o seu ponto de descida. A prestação de contas é rápida, assim como as informações sobre os horários nos pontos de embarque no dia seguinte.
Na parada de ônibus na avenida Darcy Vargas, em frente ao Amazonas Shopping, uma passageira observa a saída de passageiros, e o motorista faz o convite ao dizer “Jorge Teixeira – João Paulo”. Ela faz sinal de positivo e a porta dos fundos se abre para ela.
Rapidamente o ônibus lota. O motorista não se sente inibido em transportar passageiros na clandestinidade, com os usuários se acomodando pelo corredor. Alguns sentam na escada da porta do ônibus e outros, no capô interno.
Durante a viagem, a porta dianteira segue aberta, aumentando a circulação do ar no interior do veículo, mas nas proximidades do viaduto Miguel Arraes, próximo ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM), a porta se fecha.
Pontualidade certa: Os passageiros, não abrem mão do serviço, mesmo em condições precárias, e não reclamam de pagar R$ 0,25 a mais em relação à passagem cobrada nos transporte legal.
Um deles é a diarista Joana (nome fictício), moradora da comunidade Nova Floresta, no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste de Manaus, que há aproximadamente seis meses segue de casa para o trabalho na avenida Efigênio Sales/V8, num ônibus “pirata”.
Ciente do perigo, diz que foi a única solução para conseguir chegar ao trabalho a tempo. “É um transporte proibido, mas ele faz o trajeto próximo de casa até o trabalho, sem precisar ter que parar nos terminais. Só preciso chegar antes do horário que ele costuma a passar, às 5h40”, conta.
Joana justifica a sua opção de embarcar no ônibus clandestino pela insatisfação com o sistema de transporte coletivo regular. “A pontualidade desse é certa, e a rota atende às nossas necessidades. No ônibus normal, levaria pelo menos umas duas horas para voltar para casa”, justifica.
Durante o flagrante, a equipe de reportagem observou que muitos trabalhadores já estão familiarizados com o “pirata”. Alguns cumprimentam o motorista pelo nome de “Cleibson”.
A bordo do transporte clandestino, atentamos que o motorista atendia normalmente as chamadas no celular. Numa conversava ao celular, aparentava negociar a locação do veículo para algum evento – R$ 300 para um percurso combinado durante a ligação.
A cada parada, ao menos três trabalhadores embarcam no transporte clandestino. Além disso, o tráfego acontece livremente no entorno do Terminal de Integração 5. A caminho da Grande Circular, no mesmo ponto, é que, aos poucos, os passageiros começam a desembarcar.
“Daqui (Grande Circular) o percurso é bem parecido com o do ‘amarelinho’. Se tivesse vindo de ônibus do trabalho para casa, teria que descer no T5 e seguir viagem no ‘amarelinho’ para descer mais perto de casa”, comenta o frentista Mauro (nome fictício) sobre a vantagem do clandestino, prestes a se despedir da repórter.
A equipe de reportagem foi a última a descer no final da linha, na Bola do Produtor, no João Paulo II. Após a viagem iniciada no Dom Pedro, Zona Centro-Oeste, desembarcamos por volta das 18h45 no local – um itinerário de menos de duas horas atravessando a cidade.
Fiscalização e multa: Durante o percurso do ônibus clandestino, acompanhado pela equipe de reportagem, não foi vista nenhuma fiscalização.
A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) em busca de informações sobre as linhas irregulares. Por meio de nota, a superintendência  afirmou que tem feito constantes fiscalizações no intuito de combater a circulação de veículos que façam o transporte de passageiros clandestinamente.
A SMTU salientou que somente esta semana, realizou três operações em zonas diferentes da cidade – Centro-Sul, Sul e Oeste. O órgão explica que as fiscalizações são direcionadas para os locais informados por meio de denúncias que chegam ao conhecimento dos fiscais ou vindas da população, registradas junto à SMTU.
Sobre o flagrante feito pela reportagem, a SMTU diz que irá averiguar, por meio do setor de fiscalização, e se houver o flagrante da irregularidade será feita a apreensão do veículo.
A multa aplicada para o transporte clandestino é de 40 Unidades Fiscais do Município (UFMs), equivalente a R$ 3.151,60. Se o mesmo veículo for apreendido pela segunda vez, o valor dobra e vai para 80 UFMs, ou R$ 6.303,20.
Fonte e fotos: Portal Em Tempo (AM)

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