Operação Vectura Corrupta investiga suspeita de infiltração do PCC no transporte de São Paulo

Operação Vectura Corrupta investiga suspeita de infiltração do PCC no transporte de São Paulo

Investigação cita 12 empresas de ônibus, levou a 16 mandados de prisão e motivou medidas administrativas envolvendo a A2 Transportes

A Operação Vectura Corrupta investiga suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo de São Paulo. Deflagrada em setembro de 2026, a operação reúne apurações sobre possíveis vínculos entre integrantes da organização criminosa, empresas de ônibus, empresários e agentes públicos.

Os documentos relacionados à investigação citam 12 empresas que operam ou operaram no sistema municipal de transporte da capital paulista. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil solicitou à Justiça o afastamento de 43 pessoas ligadas à administração de nove empresas, além da possibilidade de intervenção da Prefeitura de São Paulo por meio da SPTrans.

O pedido de afastamento coletivo, porém, não foi acolhido naquele momento. O Ministério Público considerou que ainda era necessário individualizar a participação de cada pessoa antes da adoção de uma medida que impediria dezenas de gestores de exercer suas funções. Também foi apontado o risco de impacto sobre a continuidade do transporte coletivo.

A operação teve ainda a prisão temporária decretada de 16 investigados. Na manhã de 18 de setembro, dez haviam sido presos e seis continuavam não localizados. Entre os nomes procurados estavam o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite e o empresário Paulo Sirqueira Korek Farias, ligado à A2 Transportes.

Operação Vectura Corrupta envolve 12 empresas de ônibus

A investigação aponta suspeitas relacionadas a 12 empresas: Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, MoveBus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus/UPBus, Norte Buss e Spencer.

Segundo os investigadores, mensagens analisadas durante a apuração indicariam influência ou controle do PCC sobre essas empresas. Essa afirmação integra a investigação e não corresponde, por si só, a uma decisão judicial definitiva que tenha reconhecido controle criminoso sobre todas as operadoras.

A relação das empresas aparece nos documentos a partir da análise de mensagens e de outros elementos obtidos durante a investigação. A apuração considera que o transporte coletivo poderia ter sido utilizado para movimentação de recursos, lavagem de dinheiro e estabelecimento de relações com agentes públicos.

O pedido específico de afastamento administrativo, entretanto, abrangia nove empresas: A2 Transportes, Alfa Rodobus, Allianz Transportes, Auto Viação Transcap, Imperial Transportes Urbanos, MoveBus/Transpeople Soluções em Mobilidade Urbana, Norte Buss Transportes, Pêssego Transportes e Spencer Transporte Rodoviário.

Transwolff, Transunião e Qualibus/UPBus ficaram fora desse pedido específico em razão de medidas anteriores envolvendo essas empresas, como operações, intervenções, alterações na operação ou processos administrativos.

Polícia Civil pediu afastamento de 43 gestores

Em 4 de agosto de 2026, a Polícia Civil apresentou representação solicitando o afastamento de 43 pessoas de funções administrativas e gerenciais nas nove empresas.

A medida pretendia impedir que os investigados exercessem funções de gestão, participassem de assembleias, acessassem sedes e garagens ou recebessem remunerações relacionadas às funções administrativas. Também foi solicitado que eles fossem impedidos de retirar lucros, dividendos ou juros sobre capital próprio.

A Polícia Civil argumentou que a medida teria como objetivo evitar que os investigados continuassem exercendo influência sobre as empresas e recebessem recursos relacionados às atividades investigadas.

Caso os afastamentos fossem autorizados, a representação previa a intervenção da Prefeitura de São Paulo, por meio da SPTrans, para garantir a continuidade das linhas. A proposta incluía ainda a possibilidade de transferência temporária das operações para outras empresas.

A distribuição dos 43 nomes no pedido policial era de quatro pessoas ligadas à A2, 13 à Alfa Rodobus, seis à Allianz, duas à Transcap, quatro à Imperial, quatro à MoveBus, seis à Norte Buss, quatro à Pêssego e duas à Spencer.

Gaeco questionou afastamento coletivo

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) concordou com parte significativa das medidas solicitadas pela Polícia Civil, incluindo prisões temporárias, buscas e providências relacionadas à investigação patrimonial.

A divergência ficou concentrada no afastamento simultâneo dos 43 gestores.

Em manifestação apresentada em 7 de agosto, o Ministério Público avaliou que ainda não era possível determinar individualmente a participação de cada pessoa, os poderes administrativos efetivamente exercidos e a relação temporal entre a atuação dos envolvidos e os fatos investigados.

Outro ponto considerado foi o caráter essencial do transporte coletivo. Para o Gaeco, a retirada simultânea de dezenas de integrantes dos quadros administrativos poderia provocar risco de descontinuidade dos serviços e afetar diretamente os passageiros.

O órgão, contudo, não descartou a possibilidade de novos pedidos de afastamento. A medida poderia voltar a ser analisada após a obtenção e análise de celulares, documentos, contratos, registros financeiros e outros materiais apreendidos durante as diligências.

Investigação relaciona empresas a movimentações financeiras

A A2 Transportes aparece em diferentes pontos da investigação. Paulo Sirqueira Korek Farias é apontado nos documentos como ligado à gestão da empresa e também à Translíder, que atuou no transporte municipal de Cubatão.

A apuração cita a negociação de 63 ônibus da Translíder pelo valor de R$ 1,26 milhão. Segundo os documentos, parte dos valores teria sido depositada em uma conta vinculada à A2.

Também é mencionada uma planilha com pagamentos de R$ 825.880 entre novembro de 2019 e janeiro de 2020, além de um comprovante de R$ 100 mil destinado à conta da empresa.

A Polícia Civil sustenta ainda que José Daniel Satilite e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz apareciam formalmente ligados à Translíder, mas seriam pessoas interpostas ligadas aos interesses de Paulo Korek.

Júlio Salvador Filho, diretor da A2, também é citado na investigação em relação a decisões sobre pagamentos envolvendo a Translíder.

Essas informações correspondem às hipóteses apresentadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público nos documentos da investigação e estão sujeitas ao contraditório e à análise judicial.

Prefeitura anuncia medida contra a A2 Transportes

Após a deflagração da operação, a Prefeitura de São Paulo determinou a criação de um grupo de trabalho formado por representantes da Procuradoria-Geral do Município, Controladoria-Geral do Município, Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e SPTrans.

O grupo foi criado para analisar contratos, documentos e possíveis vínculos da A2 Transportes com os fatos investigados.

A Prefeitura também determinou que a empresa afastasse Paulo Korek e Júlio Salvador Filho de suas funções no prazo de 24 horas. Caso a determinação não fosse cumprida, a administração municipal informou que poderia decretar uma intervenção preventiva na empresa.

A medida administrativa contra a A2 é diferente do pedido apresentado pela Polícia Civil em agosto. Enquanto a representação policial buscava o afastamento de 43 pessoas em nove empresas, a determinação municipal se concentrou na diretoria da A2.

Prisões temporárias chegaram a 16 investigados

A Polícia Civil havia solicitado a prisão temporária de 16 pessoas. Inicialmente, a primeira instância autorizou três prisões: André Cassali, Claudionor Aparecido Sabino Tomaz e José Daniel Satilite.

O Ministério Público recorreu da decisão. Em 4 de setembro, o desembargador Sérgio Ribas, da 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, autorizou a prisão temporária de outros 13 investigados.

Com as duas decisões, a operação passou a contar com 16 mandados de prisão temporária.

Entre os nomes incluídos na segunda decisão estavam Júlio Salvador Filho, Levi dos Santos Oliveira, Milton Leite da Silva, Milton Mello Milreu, Paulo Sirqueira Korek Farias e outros investigados.

Na manhã de 18 de setembro, o balanço disponível indicava dez pessoas presas e seis ainda não localizadas.

Milton Leite e Levi Oliveira aparecem na investigação

Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, aparece entre os investigados que tiveram prisão temporária decretada.

A decisão judicial relacionada à operação menciona alegações de que ele seria proprietário de fato da Transwolff e teria participação na operação de empresas investigadas. O material também apresenta relatos de policiais militares sobre uma suposta relação entre Leite e a empresa.

A Transwolff, por meio de sua defesa, contestou as acusações e afirmou que Milton Leite nunca teve participação societária ou administrativa na empresa.

O ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira também foi incluído entre os investigados com prisão temporária decretada. Os documentos citam encontros e conversas envolvendo interesses relacionados a empresas de transporte.

O material analisado não estabelece, nos trechos apresentados, qual decisão administrativa concreta teria sido tomada por Levi em decorrência dessas conversas.

Investigação começou após apreensão de drogas

A origem do inquérito remonta a uma ocorrência registrada em junho de 2023, em Itaquaquecetuba, onde foram apreendidos aproximadamente 28 quilos de maconha e oito quilos de cocaína.

A análise de celulares apreendidos posteriormente levou os investigadores a identificar pessoas apontadas como integrantes do PCC e suspeitas relacionadas a lavagem de dinheiro, tráfico, negociação de armas, influência política e utilização de empresas regulares para movimentação de recursos.

A partir desses elementos, a investigação avançou para empresas de transporte, contratos públicos, licitações e relações com agentes políticos e administrativos.

Os documentos citam ainda operações de ônibus em municípios como São Paulo, Cubatão, São Vicente, Itanhaém e Leme.

Contratos de ônibus somavam R$ 22,22 bilhões em 2019

A investigação também envolve empresas que receberam contratos de concessão do sistema municipal de transporte de São Paulo.

Os contratos originais assinados em 2019 para os lotes D1 a D13 do Grupo Local de Distribuição tinham valor contratual estimado de R$ 22,22 bilhões e prazo de 20 anos, com possibilidade de prorrogação por até um ano.

O valor corresponde à estimativa da remuneração durante todo o período contratual, calculada originalmente com taxa de desconto de 9,85% ao ano. Não se tratava de pagamento antecipado às empresas.

Embora fossem 13 contratos, havia dez concessionárias titulares diferentes. Três empresas ou grupos concentravam mais de um lote: o Consórcio Transnoroeste, com D1 e D2; a Transunião, com D3 e D7; e a Transwolff, com D10 e D11.

Entre os maiores contratos estavam o D1, do Consórcio Transnoroeste, estimado em R$ 2,95 bilhões; o D10, da Transwolff, com R$ 2,63 bilhões; o D11, também da Transwolff, com R$ 2,28 bilhões; o D6, da Allibus, com R$ 2,18 bilhões; e o D8, da MoveBuss, com R$ 1,99 bilhão.

A2 e Transwolff aparecem entre os contratos investigados

O lote D9 foi originalmente concedido à A2 Transportes, representada no contrato por Paulo Sirqueira Korek Farias. O valor contratual estimado era de R$ 1,86 bilhão.

Já os lotes D10 e D11 foram assinados originalmente com a Transwolff, com valores estimados de R$ 2,63 bilhões e R$ 2,28 bilhões, respectivamente.

Os contratos previam a operação das linhas locais, manutenção e limpeza dos ônibus, abastecimento, conservação de garagens, cumprimento de horários e itinerários, atendimento aos passageiros, utilização dos sistemas de bilhetagem e monitoramento, além de padrões de acessibilidade, segurança e qualidade.

Também estavam previstas obrigações relacionadas à renovação e adequação da frota e à realização dos investimentos definidos na licitação.

Remuneração das empresas seguia regras contratuais

A remuneração das concessionárias não dependia exclusivamente da arrecadação obtida com as tarifas pagas pelos passageiros.

Os contratos estabeleceram regras econômicas relacionadas à prestação dos serviços, produção operacional, custos reconhecidos, indicadores de qualidade e demais parâmetros definidos pela Prefeitura de São Paulo e pela SPTrans.

A tarifa pública paga pelo passageiro e a remuneração contratual da concessionária são, portanto, mecanismos distintos dentro da estrutura de financiamento do sistema.

Os contratos também previam reajustes periódicos, revisões, recomposição do equilíbrio econômico-financeiro, termos aditivos, indicadores de desempenho, penalidades e possibilidade de intervenção ou extinção da concessão nas hipóteses previstas.

Por isso, os valores originalmente estabelecidos em 2019 não representam necessariamente os valores ou condições atuais dos contratos. Mudanças na operação, custos, frota, quilometragem, obrigações e intervenções podem alterar a configuração contratual ao longo do tempo.

Empresas citadas na investigação também aparecem no IQT

Os dados apresentados sobre o Índice de Qualidade do Transporte (IQT) da SPTrans mostram diferenças entre as operações municipais.

Entre janeiro e abril de 2026, o índice médio do sistema foi de 77,43 pontos. O resultado caiu de 79,66 pontos em janeiro para 76,32 em abril. Março registrou 75,91 pontos.

A média é ponderada pela quantidade de passageiros transportados e não corresponde à média aritmética simples das 40 operações relacionadas.

Nesse período, 25 operações ficaram na faixa classificada pela SPTrans como “bom”, 14 na faixa “regular” e uma na faixa “ruim”. Nenhuma alcançou a classificação “ótimo” na média do período.

A A2, responsável pelo lote D9, registrou 58,11 pontos e foi a única operação classificada como “ruim” na base apresentada.

Grupo de distribuição concentrou os menores índices

Os dados do IQT também mostram diferenças entre os grupos de operação do sistema municipal.

O grupo Distribuição apresentou 77,31 pontos em janeiro, 76,04 em fevereiro, 73,67 em março e 73,33 em abril. Foi o único grupo que apresentou queda em todos os meses analisados.

Nesse grupo estavam a única operação classificada como “ruim” e nove das 14 operações classificadas como “regular”.

Os dados também mostram diferenças entre lotes de uma mesma empresa. A Alfa Rodobus, por exemplo, registrou 67,76 pontos no D4 e 86,39 no D13. A Norte Buss marcou 66,87 no D2 e 81,87 no D1.

Os lotes D10 e D11, associados originalmente à Transwolff, aparecem na base sob o nome SPTrans, com índices de 73,24 e 73,95, ambos na faixa “regular”.

Os resultados de maio e junho ainda não estavam preenchidos na base apresentada e os números estavam sujeitos a revisão até o fechamento do ciclo.

Por que o transporte coletivo aparece na investigação

A investigação também aborda os motivos pelos quais o setor de transporte coletivo teria sido utilizado para movimentação de recursos.

A análise apresentada no material aponta características econômicas do transporte coletivo, como necessidade de grandes investimentos, operação contínua e geração de receitas recorrentes.

A estrutura também envolve contratos públicos, concessões, fiscalização, remuneração e relações institucionais com órgãos municipais.

A investigação considera que essas características poderiam criar condições para movimentação de recursos ilícitos e para estabelecimento de relações com agentes públicos. Essa interpretação integra a apuração e não representa, por si só, uma conclusão judicial sobre todas as empresas mencionadas.

Empresas investigadas transportaram parcela dos passageiros de São Paulo

Segundo os dados apresentados nos autos, as 12 empresas citadas na investigação operavam linhas de distribuição local do sistema municipal.

Em agosto de 2026, essas empresas teriam transportado 72.947.123 passageiros, diante de 177.902.234 embarques registrados em todo o sistema municipal no mesmo período.

O conjunto correspondia a aproximadamente 41% dos embarques registrados nos ônibus da capital naquele mês.

As empresas relacionadas à investigação também operavam 510 linhas municipais, segundo os dados apresentados, correspondendo a cerca de 38% da rede da cidade.

Investigação envolve suspeitas, sem condenações definitivas

A Operação Vectura Corrupta reúne medidas cautelares, análise de mensagens, documentos, movimentações financeiras e informações sobre contratos públicos.

As suspeitas apresentadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público ainda estão sujeitas ao contraditório, à ampla defesa e à análise judicial.

O afastamento coletivo de 43 gestores solicitado pela Polícia Civil não foi determinado naquele momento. O Gaeco apontou a necessidade de individualização das condutas e considerou o risco de descontinuidade de um serviço público essencial.

Da mesma forma, as prisões temporárias e demais medidas cautelares adotadas no âmbito da operação não representam condenação definitiva dos investigados.

As investigações permanecem em andamento, com análise dos materiais obtidos nas buscas e possibilidade de novas medidas conforme os elementos sejam individualizados e avaliados pelas autoridades responsáveis.

Foto: Ciete Silvério/Prefeitura de São Paulo/Ilustração / André Bueno/Câmara de São Paulo/Ilustração

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