Déficit de aproximadamente 30% na categoria leva entidades a estudarem novas estratégias de recrutamento, retenção e renovação da mão de obra no transporte interestadual
O transporte rodoviário interestadual de passageiros registra um déficit estimado de aproximadamente 30% de motoristas em todo o Brasil. A escassez de profissionais tem levado empresas e entidades representativas do setor a discutirem estratégias para ampliar a atração de trabalhadores e compreender as mudanças no perfil da categoria, diante da dificuldade de renovação da mão de obra.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati) apontam que mais de 60 mil motoristas atuam atualmente no segmento. No entanto, seriam necessários quase 86 mil profissionais para atender à demanda nacional. O cenário é mais acentuado em estados da região Centro-Oeste, onde a falta de motoristas é considerada mais significativa.
Embora a deficiência de profissionais ainda não comprometa diretamente a operação das empresas devido ao atual ritmo do mercado, representantes do setor avaliam que a situação exige atenção para os próximos anos. Como alternativa temporária, diversas empresas têm incentivado motoristas aposentados a permanecerem na atividade para reduzir os impactos da escassez.
Entretanto, essa solução tende a perder eficácia à medida que esses profissionais enfrentem dificuldades para renovar a habilitação necessária para exercer a função, o que poderá ampliar a falta de mão de obra no transporte interestadual.
Mudanças no perfil dos trabalhadores
Segundo a presidente da Abrati, Letícia Pineschi, a redução do interesse pela profissão está relacionada a uma série de mudanças observadas no mercado de trabalho ao longo dos últimos anos.
Entre os fatores apontados está a preferência de muitos trabalhadores por atividades que permitam retornar diariamente para casa, evitando viagens de longa duração e pernoites fora do domicílio.
De acordo com a dirigente, parte dos motoristas optou por migrar para segmentos como transporte por aplicativo, táxi e transporte coletivo urbano, modalidades que oferecem maior previsibilidade da rotina de trabalho.
Além disso, a profissão passou a exigir novas competências além da condução dos veículos. Atualmente, os motoristas também desempenham funções relacionadas ao atendimento aos passageiros e ao uso de tecnologias embarcadas, ampliando as responsabilidades da atividade.
Outro movimento observado pelo setor é a migração de profissionais para o transporte rodoviário de cargas. Segundo a Abrati, a remuneração semelhante e a ausência da necessidade de interação constante com passageiros têm contribuído para essa escolha.
Pesquisa busca entender perfil dos motoristas
Como parte das ações para enfrentar o déficit de motoristas no transporte interestadual, a Abrati e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT) estão estruturando uma pesquisa nacional.
O objetivo é identificar o perfil atual dos profissionais, compreender os fatores que influenciam o interesse pela carreira e levantar demandas da categoria. As informações deverão subsidiar futuras políticas de recrutamento, formação e retenção de trabalhadores.
Outro desafio identificado pelas entidades é o envelhecimento da força de trabalho. Atualmente, a maior parte dos motoristas do transporte rodoviário interestadual está concentrada na faixa etária entre 40 e 50 anos. A proximidade da aposentadoria de parte desses profissionais pode ampliar o déficit caso não ocorra renovação da categoria.
Participação feminina ainda é reduzida
A presença de mulheres no transporte rodoviário interestadual de passageiros continua limitada. Segundo Letícia Pineschi, um dos principais fatores apontados para a baixa participação feminina é a necessidade de realizar viagens longas com pernoites fora de casa.
De acordo com a presidente da Abrati, essa característica da atividade influencia principalmente mulheres que acumulam responsabilidades familiares, reduzindo o interesse pela profissão.
Apesar desse cenário, programas de capacitação promovidos pelo Sest Senat têm contribuído para ampliar gradualmente a presença feminina tanto no transporte coletivo quanto no transporte de cargas.
Empresas ampliam medidas de saúde e segurança
Além dos desafios relacionados à contratação de profissionais, as empresas do setor também reforçaram, nos últimos anos, os protocolos voltados à saúde e à segurança dos motoristas e dos passageiros.
Entre as medidas adotadas estão exames periódicos, realização de testes de bafômetro antes das viagens e monitoramento de fatores que possam comprometer a condução dos veículos, incluindo o consumo de álcool, drogas e outros comportamentos de risco.
Algumas empresas também passaram a desenvolver programas preventivos voltados ao combate à dependência em apostas esportivas e jogos online.
Outra iniciativa implementada envolve programas de higiene do sono. Os motoristas recebem acompanhamento médico, avaliações sobre a qualidade do descanso e tratamento para distúrbios como apneia do sono.
Em determinados pontos de parada, algumas empresas disponibilizam ainda salas de estimulação com iluminação intensa, alimentação balanceada e bicicletas ergométricas. O objetivo é reduzir os riscos de fadiga durante viagens de longa distância, especialmente em trajetos realizados no período noturno.
Foto: dvanzuijlekom
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