Carlos Batinga: “Sistema de transporte de Natal precisa de um choque de gestão”

O sistema de transporte público de Natal já foi referência nacional na década de 80. Hoje, destoa completamente da realidade de outras cidades para as quais serviu de espelho. O que faltou? Gestão. Esta resposta curta e imediata é do engenheiro Carlos Alberto Batinga Chaves, o responsável por elaborar o primeiro Plano Diretor de Transportes e Trânsito (PDTT) da capital potiguar, há 25 anos.
À época, a população natalense passava pouco dos 300 mil, menos da metade do que se tem hoje. O número de carros também era muito menor e a cidade, mais concentrada em torno do centro – com poucas áreas periféricas. Tudo mudou. O sistema de transportes é que não. E é aí que está o foco do caos instalado hoje na capital potiguar.
“O prazo daquele trabalho (o plano diretor) era 15 anos, com manutenção. Não se fez nada e já se passaram 25 anos”, ressaltou Batinga, em entrevista ao Novo Jornal, por telefone, de Salvador, onde mora.
O resultado é que ninguém está satisfeito com o transporte público oferecido hoje. Usuários pagam caro e têm um serviço “meia boca”, enquanto os empresários não encontram viabilidade econômica na atividade. Nos últimos 15 anos, cinco empresas já foram vendidas e a Viação Riograndense, depois de 60 anos operando em Natal, não circula há três dias, após declarar falência.
“O grande problema que temos é falta de gestão. Porque não se investiu em treinamento e capacitação do pessoal, na elaboração de projetos, de novos planos, em pesquisas etc. Na hora que não qualifica a gestão, é que surgem todos os problemas”, afirmou, ressaltando que é a partir deste mau gerenciamento que surgem as barreiras, inclusive, para a captação de recursos.
Comparando com a época em que o Plano Diretor de Transportes foi elaborado, Batinga aponta a mudança econômica para os empresários. Um ônibus conseguia, na década de 80, fazer diariamente 14 viagens. Hoje, afirmou, não se chega a oito. Além disso, enquanto cada veículo transportava uma média de 1000 passageiros por dia, hoje não carrega nem a metade. E essas diferenças não existiriam ou, ao menos, não seriam tão gritantes, se tivesse sido feito um trabalho contínuo de atenção ao trânsito urbano. “Natal está precisando de um novo choque de gestão”, ressaltou.
O PDTT de Natal foi feito na gestão do prefeito Marcos Formiga, por meio de um convênio celebrado entre o Município, o Governo do Estado e o Governo Federal. O plano foi construído todo em cima de um planejamento, orientado por pesquisas de demanda e estudos de áreas. O trabalho foi feito por uma equipe técnica que, em pouco tempo, formaria a base da Superintendência de Transporte Urbano (STU), hoje Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (SEMOB).
“Era um trabalho técnico e profissionalizado. Então foram implantadas todas as medidas necessárias para a organização do transporte, desde a fiscalização, controle dos veículos e atendimento às áreas”, explicou. Através de um zoneamento, Natal foi dividida em quatro zonas. Cada empresa de ônibus ficou responsável por uma delas.
O sistema, revelou Batinga, era eficiente e muito rigoroso. Para se ter uma ideia, em cada um dos terminais de bairro – todos regularizados nesta época – havia um relógio de ponto e os fiscais eram rígidos com o horário. No mesmo período, foram implantadas as sinalizações físicas da cidade. “Foi quando se criou o contra fluxo na Mário Negócio e no Baldo”, lembrou.
O modelo utilizado em Natal serviu de referência para várias cidades do Brasil. No Nordeste, inspirou o modelo de João Pessoa, Campina Grande, Maceió e Aracaju. A superintendência também foi copiada, passando a existir somente depois em Salvador e na capital paraibana.
Sem solução a curto prazo: Para o antigo superintendente de Trânsito Urbano de Natal, Carlos Batinga, não há solução a curto prazo para o caos no transporte público. Em sua avaliação, ainda que seja dada maior prioridade à questão, um reflexo positivo só deve ser observado em médio e longo prazo.
A explicação é que o primeiro passo para uma mudança seria investir na capacitação e qualificação do corpo técnico da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob), o que não levaria tão pouco tempo. Depois é que seriam elaborados projetos para a melhoria do setor e, por último, a execução do que foi planejado. “Vendo com otimismo, se houver uma decisão de governo, mudanças positivas devem acontecer em dois ou três anos”, avaliou.
O reajuste de tarifa, defendido pelas empresas de ônibus em Natal, também não é visto como a grande solução. “Sem duvida nenhuma, tem que existir uma tarifa que cubra os gastos. É uma medida de curto prazo, mas sozinha não resolve”. O valor cobrado hoje é R$ 2,20, o que, segundo os empresários, não cobre a planilha de gastos para a manutenção do serviço.
Carlos Batinga afirma que na década de 80 todos os gastos da planilha eram repassados ao consumidor. Mas para que isso não aconteça hoje, o que pesaria no bolso da população, ele aponta que o Município pode subsidiar alguns insumos. Fortaleza, cita ele, não cobra o ISS (Imposto Sobre Serviços) e isenta o ICMS (Iposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) do diesel.
Dos problemas observados em Natal, provocados pela falta de manutenção da política de transportes, ele revela que boa parte não é exclusiva da capital potiguar e se repete em várias outras cidades. O problema, define, é que o Governo Federal participava efetivamente do processo de organização do sistema de transportes e hoje quase não apoia os municípios.
Outra culpa atribuída ao Governo Federal é a valorização do transporte individual, frente o transporte coletivo.

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