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Biometano avança como alternativa para descarbonização do transporte público no Brasil

Do PORTAL UNIBUS
Foto: Roberto Custodio (Divulgação / Compagas)

A descarbonização do transporte público no Brasil passa a contar com uma nova alternativa: o biometano. No fim de março, Goiânia iniciou a operação dos primeiros ônibus articulados do país movidos por esse combustível, produzido a partir de resíduos orgânicos como vinhaça de cana-de-açúcar, dejetos animais e lixo urbano.

A adoção ocorre em um cenário em que projetos de eletrificação das frotas enfrentam desafios para avançar. Em São Paulo, por exemplo, há 1.259 ônibus elétricos em circulação, mas fatores como alto custo de aquisição e limitações operacionais têm dificultado a ampliação dessa tecnologia. Um ônibus elétrico pode custar até três vezes mais que um modelo a diesel, além de demandar tempo de recarga entre uma e quatro horas, enquanto o abastecimento de veículos a biometano leva cerca de 15 minutos.

Diante dessas limitações, o setor tem ampliado o debate sobre a adoção de diferentes matrizes energéticas. Além do biometano, modelos híbridos com etanol também ganham espaço, especialmente em regiões com forte produção agrícola.

Na capital paulista, a flexibilização das regras para renovação da frota foi formalizada por meio do Programa BioSP, que permite o uso de biometano em linhas onde a infraestrutura elétrica ainda é limitada. A medida abriu espaço para novos fornecedores e alternativas tecnológicas.

Fabricantes como a Marcopolo e a Scania têm ampliado a atuação nesse segmento, com negociações em andamento em estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro, além de estudos em cidades como Curitiba e Ribeirão Preto.

O custo de aquisição dos veículos movidos a biometano é cerca de 50% superior ao diesel, mas ainda inferior ao dos modelos elétricos. A infraestrutura necessária também é considerada menos complexa, já que o abastecimento pode ser feito com tanques de gás comprimido nas garagens, sem necessidade de grandes adaptações na rede elétrica.

“O gás ganha escala mais rápido porque não depende de upgrades massivos em subestações”, afirmou Alex Nucci, diretor comercial da Scania no Brasil.

A autonomia dos veículos também é apontada como um diferencial. Em Goiânia, os ônibus articulados operam com alcance superior a 400 quilômetros por abastecimento, suficiente para cobrir a demanda diária, que varia entre 250 e 300 quilômetros.

Apesar das vantagens, o modelo apresenta desafios. A manutenção de motores a gás pode ser até 15% mais cara que a do diesel, e componentes como cilindros de fibra de carbono ainda dependem de importação, o que impacta os custos.

O caso de Goiânia é considerado um dos principais exemplos da adoção do biometano no transporte público. A cidade já conta com oito veículos em operação e prevê ampliar a frota para 80 unidades até o fim de 2026 e 500 até 2027. O projeto inclui investimentos superiores a R$ 2,5 bilhões em frota, infraestrutura e tecnologia.

Para viabilizar o abastecimento, foi firmada parceria com a GeoGreen Biogás para construção de uma usina em Guapó, com capacidade de produção de até 100 mil metros cúbicos por dia. A iniciativa também prevê a implantação do primeiro gasoduto do estado, em conjunto com a Goiásgás.

Enquanto a produção local não atinge plena capacidade, o abastecimento é realizado por meio de transporte rodoviário de biometano comprimido, podendo ser complementado com gás natural veicular.

“O ônibus é a âncora que torna a usina viável”, afirmou Laércio Ávila, destacando a relação entre demanda de transporte e viabilidade econômica da produção de combustível.

A expansão do uso de gás no transporte também se reflete nas projeções do setor. A Scania estima encerrar 2026 com cerca de 3 mil veículos a gás vendidos no Brasil, entre caminhões e ônibus. A empresa tem investido na nacionalização de motores e na ampliação de seu portfólio, incluindo veículos elétricos, indicando uma estratégia baseada na coexistência de diferentes tecnologias.

Experiências internacionais também reforçam essa tendência. Em Bogotá, ônibus biarticulados operam no sistema TransMilenio, enquanto em Estocolmo o biometano já é amplamente utilizado no transporte público.

Segundo especialistas do setor, a escolha da matriz energética tende a variar conforme as características regionais, levando em conta fatores como infraestrutura, custo e disponibilidade de insumos. Nesse contexto, o biometano se apresenta como uma alternativa com potencial de expansão mais rápida, especialmente em cidades que enfrentam limitações para implantação de sistemas elétricos.

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