Retrô: Os primeiros transportes coletivos de Mossoró

É muito bom contar histórias antigas sobre o nosso transporte. Ainda mais se tais situações descreverem o transporte em locais onde conhecemos pouco tal história. Por isso, com muito orgulho, a coluna “Retrô” de hoje traz as histórias de como surgiu o transporte coletivo na Capital do Oeste.

Para contar essas histórias, o jornalista Geraldo Maia publicou, em novembro passado, o texto abaixo no jornal O Mossoroense, principal periódico da segunda maior cidade potiguar. Ele foi dividido em 3 partes, publicadas entre 02 e 17 de novembro. Mas, o UNIBUS RN traz hoje o texto completo. Delicie-se e viaje na história do transporte de Mossoró.
Consta que no ano de 1926 existia em Mossoró um comerciante turco, de nome Maurício, que tinha a sua loja de bijuterias instalada na antiga Rua do Comércio. Era tido como um homem de visão e não media esforços quando via a possibilidade de ganhar um dinheirinho extra. E vivenciando a dificuldade que existia quando alguém precisava se deslocar a outro município, resolveu comprar um caminhão e adaptá-lo para servir de transporte coletivo.
Pouco tempo depois apareceu o tal caminhão, pintado de azul e branco, com duas filas de assentos na cabine, além da carroceria de carga. No mesmo dia o Sr. Maurício começou a anunciar que no dia seguinte, às quatro horas da madrugada, o seu caminhão faria a primeira viagem com destino à cidade de Lajes. E não demorou a aparecer os primeiros passageiros. O motivo da escolha do trajeto é que Lajes era entroncamento de várias linhas da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, com destino a Natal.
No dia seguinte, por volta das oito horas da manhã, o caminhão do seu Maurício continuava parado em frente a sua Loja, com um pneu furado e um “prego” no motor. E sonolentos passageiros aguardando que os problemas fossem resolvidos para que pudessem, enfim, iniciar a viagem. O curioso é que todos os lugares estavam ocupados e havia muita gente por cima da carga.
Resolvidos os problemas, iniciaram a viagem. De Mossoró para Assu foram consumidas mais de quatro horas, tendo direito a uma parada no Hotel Pátria, de Antônio Saboia, para descanso e almoço. Daí para Lajes, estirão maior, viagem mais demorada ainda. Quase ao anoitecer fizeram outra parada na Fazenda São Joaquim, que pertencia ao agrônomo Antídio Guerra. Esse, penalizado com a situação daquelas pessoas, matou a fome dos mesmos servindo copos de leite tirado no peito da vaca que estava ordenhando. Eram mais de nove horas da noite quando finalmente chegaram a Lajes.
Hospedaram-se no já famoso “Hotel da Feiticeira”, cujo proprietário era Tatu. Como o jantar já tinha sido servido tiveram que se conformar com uma xícara de café requentado e a sobra do pão do jantar. Mesmo assim foi um alívio para aquela gente cansada e empoeirada, que terminava ali a primeira jornada da viagem com destino a Natal.
Já no outro dia, ainda no amiudar dos galos, como se dizia antigamente, o proprietário acordava os hóspedes mal dormidos, badalando junto as portas de cada quarto um sino de estranha sonoridade, que diziam ser capaz de acordar até um surdo. Toda essa barulheira era para que ninguém perdesse o trem que por ali passava às cinco horas da manhã, para chegar a Natal lá pelas duas ou três horas da tarde.
Não encontrei, em minhas pesquisas, até quando o Sr. Maurício manteve seu caminhão desempenhando essa função. Sabemos apenas que tempo depois ele teria transferido sua loja de bijuteria para o vizinho estado do Ceará, dele não se ouvindo mais falar. Mas até que se prove o contrário, foi o caminhão de seu Maurício o primeiro transporte coletivo de Mossoró.
No início de 1929 começaram a aparecer em Mossoró os primeiros carros de transporte urbanos, ligando os bairros mais distantes com o centro da cidade. Esses veículos pertenciam a um comerciante do Assu, de nome Etelvino Caldas. Apesar da má qualidade dos veículos, que por nada se quebravam, representou um grande avanço para Mossoró poder contar com esse serviço.
Mas não ficou só nisso não. Etelvino Caldas era um homem de visão e logo atinou para outro plano, imaginando que uma linha de passageiros entre Mossoró e Lajes podia ser uma iniciativa proveitosa. E foi à ação botando em trânsito um ônibus confortável, bem diferente do caminhão do seu Maurício, que só possuía duas boleias. O ônibus, que logo ficou conhecido como “a sopa”, sempre viajava completamente lotado.
Foi mais ou menos por essa época que surgiu também em Mossoró “a era de Zé Rocha”, indiscutivelmente figura inconfundível no sistema de transporte em caminhões, fazendo a linha entre Mossoró e Natal. O seu entusiasmo pelos serviços de transporte credenciaram-no no conceito dos usuários, criando no povo das cidades e do campo o espírito de viajar e de comunicar-se com outros centros de atividades, estabelecendo o intercâmbio como gente de vivência coletiva.
Zé Rocha deixou o seu nome gravado na história dos transportes coletivos de Mossoró. De um modesto veículo com que principiou as viagens, conduzindo passageiros, cargas e malas postais, num curto espaço de tempo conseguiu adquirir uma frota de caminhões que lhe permitiu dominar inteiramente os serviços de transportes coletivos entre Natal e várias cidades do interior potiguar, tendo como ponto de apoio a cidade de Mossoró. Era daqui que partiam todas as suas iniciativas de trabalho e de organização.
Tinha uma boa equipe de apoio, formada por motoristas, mecânicos, pessoal administrativo e tudo o mais que necessita para a administração de uma empresa. Alguns desses colaboradores, no entanto, ficaram famosos na época, pelo jeito de ser. Vamos lembrar algumas dessas pessoas:
O primeiro é o seu próprio filho Severino, conhecido por Severino de Zé Rocha. Era um jovem de temperamento marcado pela intranquilidade, enchendo as estradascom as loucuras de suas corridas desenfreadas, que enchiam de terror os desventurados passageiros que por falta de sorte tinham pegado o seu transporte. Praticava o que hojechamamos de direção perigosa, pondo em risco, além de sua própria vida, as dos seus conduzidos. Tanto assim que nas estradas o seu caminhão era conhecido como “besta fera”.
Um contraponto ao comportamento de Severino de Zé Rocha era Alfredo. Uma figura alta, magra, de face chupada e voz macia. Era o mais seguro dos motoristas, inspirando confiança e estima.
Tinha ainda uma figura curiosa que era o “Mudo de Rocha”, que viajava sempre em cima da carga, gritando, bufando, grunhindo, gesticulando para todo o mundo que encontrava, através da mímica, porque se fazia entender de modo claro.
Com o passar dos anos outros empreendedores foram instalando em Mossoró os seus transportes coletivos, prestando assim inestimável serviço a sua população. Na sequência dos acontecimentos lembramos a figura de Cícero Gadê, que foi descrito pelos contemporâneos como “um paraibano bom como o diabo, calmaria de um elefante respirando”. Organizou uma empresa de transporte de passageiros, em ônibus para Natal, com viagens diárias. O serviço era feito em carros novos, confortáveis, com estilo de capital, pois tinha até agência de partida e de chegada das viaturas, com venda de passagens e etiquetas de bagagem.
Aparece na sequência Ismael Siqueira com seus filhos mantendo linha de passageiros para Natal. A sua empresa durou muito tempo e o serviço era regularmente dentro do horário.
Temos registro de uma figura que ficou marcada na estrada de rodagem de Mossoró a Natal que foi a do motorista Antônio de Luís Cirilo. Era um dos poucos donos de coletivo que guiava o próprio transporte. Dirigiu enquanto a viatura teve permissão para circular, no mesmo ritmo de trabalho, com as mesmas peculiaridades, com o modo brusco com que tratava os passageiros, sem atenção para ninguém.
Na linha de Fortaleza, Raimundo Agostinho foi o mais popular dos donos de caminhão. Iniciou as viagens e por muito tempo foi o único a explorar essa linha entre Mossoró e Fortaleza. Igualmente a Antônio de Luís Cirilo, guiava o seu próprio veículo. Curiosamente, Raimundo Agostinho nunca teve pressa em terminar a viagem. Nunca teve hora certa para partir ou para chegar. As demoras das viagens eram explicadas, pois todo o mundo dizia que ele tinha várias namoradas ao longo do percurso, e parava em todas para um lanchinho ou a água resfriada na moringa. A parada do almoço era complementada com o intervalo para descanso, que se seguia até o sol pender. Nada de pressa. Assim, quem tivesse negócio com dia e hora marcados, que não fosse no seu carro.
Uma curiosidade envolvendo Raimundo Agostinho é que como por certo período foi o único a explorar a linha entre Mossoró e Fortaleza, cabia a ele fazer entrega de cartas que lhe davam aos montes, tanto para Fortaleza como para Mossoró. Ao chegar a essas cidades, passava no jardim (em Fortaleza, na Praça do Ferreiro, em Mossoró, na Rodolfo Fernandes), pegava uma pedra e botava o pacote de cartas debaixo, dizendo: “- Quem quiser que venha receber aqui”.
No rumo do Sertão, um dos primeiros a se aventurar com viagens de caminhão foi Jaime Mouro, com uma linha que ligava Mossoró a Patu. Há uma história (ou estória?) engraçada envolvendo Jaime Moura. Contam que existia aqui em Mossoró um cidadão chamado Joaquim Leão, que era tido como “pé-frio”. E sempre que esse cidadão resolvia viajar em algum caminhão, algum problema acontecia: arriava um pneu, a bateria não funcionava e até tanque de gasolina era furado. E quando, na hora da partida, Jaime Moura via aquele cidadão se aproximar de seu caminhão, ficava apavorado. O pior é que para evitar inimizade, não podia negar a vaga. Mas um certo dia, depois de enfrentar vários transtornos durante uma viagem, resolveu deixar Joaquim Leão no meio do caminho, próximo da Estação Ferroviária de Caraúbas. Esse pegou o trem para continuar a viagem com destino a Mossoró, mas logo após o seu embarque começaram os problemas com a composição: uma prancha carregada de algodão pegou fogo e as labaredas atingiram o vagão vizinho que estava cheio de latas de óleo, causando uma grande explosão. Resultado: o trem ficou parado no meio do caminho. Mas Joaquim Leão conseguiu, numa propriedade próxima, o empréstimo de um cavalo para prosseguir a viagem, vindo pernoitar em São Sebastião (hoje Governador Dix-sept Rosado). De madrugada foi pegar o animal para prosseguir viagem, mas o mesmo estava morto: tinha sido mordido por uma cobra. Como podemos notar, havia sim razão para as preocupações de Jaime Moura com relação a Joaquim Leão.
No caminho de Pau dos Ferros, havia o caminhão de Sérvulo Marcelino. Era um sujeito brincalhão, alegre, contador de anedotas. A viagem no carro de “seu Servo” era um horror para aqueles mais pudicos. Anedotas desrespeitosas e palavrões acompanhavam toda a viagem. Mas havia uma exceção: era quando o bispo, D. Jaime, resolvia viajar em seu caminhão. D. Jaime era conhecido como um bispo pobre, que não possuía automóvel e precisava fazer muitas das suas peregrinações nas boleias dos caminhões. E quando sua viagem era para Pau dos Ferros, mandavaum seminarista avisar a Jaime Moura, que o sr. bispo precisava de um lugar. Diante disso, o mesmo se desdobrava em atividades para tornar o caminhão mais apresentável: limpava os vidros, costurava os assentos que estavam rasgados e até mandava pintar a tabuleta do itinerário, quando esta estava desbotada. E dava instrução aos seus auxiliares com relação ao linguajar durante aquela viagem:
-“Olhe, seu “Xandoca”, amanhã a viagem é de muito respeito, diga isso a esse canalha que vai em cima da carga, pois quem disser um nome feio, uma palavra imoral, você pega e joga no meio da estrada.
– Mesmo que seja muié, “seu Servo”? Perguntou o ajudante, admirado daquela ordem.
– Seja lá o que for… respondeu o dono do veículo.”
Madrugada alta, friorenta, com o caminhão roncando, devorando a estrada do fio, da chapada do Apodi. No meio de uma reta, ouve-se bater na cabine. Sinal que se pedia parada. Sérvulo freia o veículo com violência, bota a cabeça pra fora e pergunta: 
– Que é que há?
De cima da carga respondem:
– “Seu Servo”, é uma mulé que quer dá uma coisa…
– Pois eu quero, respondeu o motorista. Nessa altura, Sérvulo Marcelino, caindo em si, e insinuando um riso murcho, disse:
– Mas, meu Deus!… Me perdoe, senhor bispo.
Esses são “causos” gostosos envolvendo os pioneiros de nossas estradas de rodagem. Pessoas simples, mas que deixaram os seus nomes gravados nos anais da nossa história.
Com o desenvolvimento da cidade, muitos outros transportes surgiram. O aparecimento de novas estradas e melhoramento das já existentes permitiram que empresas se instalassem na cidade, prestando serviço de transporte coletivo de maneira mais profissional e, consequentemente, mais seguro. Mas até pouco tempo era possível se ver os famosos “mistos”, ainda em plena atividade, em linhas regulares entre Mossoró e os municípios de Governador Dix-sept Rosado, Caraúbas e outros. Hoje, esse tipo de transporte é visto apenas como atração turística nas festividades juninas de Mossoró.
Por Geraldo Maia
Fonte e fotos: O Mossoroense

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